I.M.possible Future :: Breaking the habit (II)
- maria-tudo

- 5 de jun. de 2023
- 83 min de leitura
Atualizado: 5 de mai. de 2025

Postal Circular #45 | collage 5 peças | 2014
Frase bilingue é parte integrante do verso do postal:
Fios farpados - pontos de retenção ou pontos de descolagem - Tu escolhes.
Barbed strings - retention points or take-off points - You choose.
:: Intro
I.M.possible Future encaminha-se para a triagem civilizacional decisiva,
mas não sem a cura do passado, sem a qual não há espaço . . . no tempo,
espaço sem o qual não existe movimento na terceira dimensão,
dimensão em que a humanidade se acomodou em retenção,
retenção que é ponto de partida para a próxima Estação.
::
:: Medo = o hábito de não-Ser
(este tópico inicia na Parte I desta mensagem)
Interlúdio onírico Manhã de 14 Junho, cedo, acordei de um sonho mostrando uma figura masculina, que não identifiquei, a retomar a sua função de oferecer conhecimento-sabedoria a um grupo que estava a chegar, como se fosse um 'retorno às aulas' mas sem tal formalidade, não era professor, não eram alunos, não era escola, era apenas aquele homem que se destacava tanto pelo seu entusiasmo como pela sua serenidade, a reconhecer e a ser reconhecido por quem chegava num mútuo bem-querer, muito querido por quem o ouvia. Na passagem do onírico para o vigil veio um nome, que o meu consciente nunca evocaria e nunca associaria ao sonho mas que reconheci imediatamente como um sinal - Padre António Vieira. Não sendo um referencial meu, mas tendo memória do seu nome ligada à disciplina académica de Língua Portuguesa, trouxe deste sonho uma reverente e radiante confirmação da condução desta mensagem, não por acaso no dia seguinte ao dia de Santo António (13), que inspirou e sobre o qual escreveu esse autor e orador, tão actual quanto universal, como lido aqui e descrito aqui (legendas automáticas em inglês), unindo as duas nações que o atravessaram e que ele atravessou na sua singularidade, acima da formalidade. Quem são os destinatários do que emito, é agora um ainda maior mistério . . . |
(interlúdio acima e segmento abaixo publicados em 10 Julho 2023)
:: impacto 2 ::
Última semana de Abril, olho para as duas únicas prateleiras de livros que tenho, às quais não se acrescentaram novos livros e todos os existentes passaram a estar com as lombadas viradas para trás, creio que desde o ano passado, sentindo uma necessidade de esvaziamento de referenciais externos e de distracções visuais. Aproximo-me da prateleira direita, passo os dedos sobre as folhas dos livros, detenho-me num sem o identificar, puxo-o para fora - um livro de autor português que pertenceu ao meu pai e que em algum momento passado trouxe para minha casa, sabendo que um dia iria lê-lo. Sem a menor hesitação, soube instantaneamente que este era o dia. Mal o comecei a ler senti o impacto da confirmação.
(desconheço se foi editado noutros países e idiomas,
mas pode ser traduzido a partir do pdf em link)
E porque a capa de um livro é o seu primeiro impacto, seguida das notas editoriais, que leio sempre, senti a importância de situar no tempo esta primeira edição que possuo e li, ficando a saber da existência de uma edição posterior, acrescida de um comentário do autor analisando a evolução do país três anos após a edição anterior. Comparando a capa da edição anterior (2004) com a capa da edição posterior (2007), notamos que o tema marítimo se manteve, mas a caravela sumiu. Porque será? Será porque a caravela alude aos Descobrimentos, que por sua vez passaram a aludir somente ao colonialismo politicamente incorrecto, e alguém entendeu que retirá-la foi politicamente correcto? Será porque Portugal precisa de soltar esse passado? Ou será porque Portugal se perdeu da sua génese original, presente por detrás do impulso daquele movimento que ficou conhecido como Descobrimentos, e chegou o momento de resgatar essa perda? Nem uma análise histórica da Caravela e outras embarcações portuguesas, como a deste relevante documentário (subtitled in English), que ficou em 1º lugar entre 62 documentários num concurso do Discovery Channel, tendo sido emitido em vários continentes, revela essa génese por completo. Uma actualização da História de Portugal implica um contacto com a Memória Interna, como nesta obra (in English), que revela a origem do conhecimento prévio do mapa do mundo tal como o conhecemos hoje (PT página 34 | EN page 36). Estando a alma desta nação recolhida nas profundezas de cada coração, sentida à superfície na saudade e no fado, diria que ninguém fica indiferente perante a incompletude da segunda capa face à primeira, o que pode ter sido intencional, a invocar o resgate da génese perdida.
O mesmo tipo de invocação está presente neste segmento e slideshow na parte II da primeira mensagem I.M.possible Future de 2020, em que o primeiro dos quatro slides mostra a geometria Fruto da Vida composta por 13 moedas de 2,5 Escudos (1985) que ficaram comigo, cujo desenho da caravela de então foi eliminado ainda na vigência da Moeda portuguesa pré adesão ao Euro em 2002. Simbolicamente, o Euro foi uma proposta válida, uma face europeia combinada a uma face nacional no dinheiro impresso, mas, na prática, revelou-se um instrumento da UE para fazer prevalecer interesses parciais via bypass da génese da nação. A verdadeira Moeda Única é aquela que reflecte a génese única e total de cada nação, não redutível a uma face da moeda. A cura do dinheiro é um passo fundamental na triagem civilizacional para transcender o dinheiro como representação de valor e assumir e lidar directamente com o Valor, não mais representado. Esta é que é a Matriz planetária, constatável em toda a Natureza que nos inclui. Mas o entendimento português de Matriz ficou associado a Igreja, que é outra representação. De alma cativa, Portugal ficou à mercê de representantes externos, nacionais e globais, porque o contacto interno implica atravessar a dor para assumir o desígnio que tem recusado, sem o qual vive ocupado, à sombra de si mesmo. O livro espelha de volta essa sombra. E qual é a reacção dos portugueses?
Nesta entrevista, dez anos após a primeira edição, é dito que este livro deprimiu os portugueses, embora o autor declare não ter sido essa a sua intenção. Claro que não, auscultei a sua intenção no entusiasmo crescente que senti ao longo da leitura, ao ver tantos pontos críticos tão necessariamente abordados, num compacto acessível. Mas compreendo a outra reacção, que confirma que o livro tocou onde tinha de tocar, a ferida na psique portuguesa que se fechou sobre si mesma de tão não re-visitada. Assim, esta obra, apesar de bastante vendida, não parece ter sido aproveitada na mesma proporção, mas terá deixado sementes pelo menos no inconsciente dos leitores, reflectidas em mudanças que o autor terá sentido necessidade de comentar na edição posterior, comentário que não li. A confirmar isso, parece evidente que, na sua maior parte, o livro continua actual, talvez mais actual do que na altura dessa entrevista, agora decorridos quase vinte anos após a primeira edição. O hábito de não-Ser é continuamente confirmado pelo sistema vigente, em aparentes avanços a reboque do globalismo, que cada vez mais afastam a nação do seu desígnio profundo. Mas no auge do afastamento periférico encontra-se o sinal que inicia o caminho de retorno ao centro. Aproximamos-nos desse ponto . . .
Na minha leitura assinalei 55 páginas com anotações de parágrafos específicos. Transcrevê-los na totalidade seria volumoso demais, mas justificam-se alguns excertos e comentários em cada capítulo, oferecendo uma panorâmica inicial como convite à essencial leitura integral.
Índice : "excertos" :: comentários
(1) Como convém televiver
: "(...) a conivência imposta ao telespectador."
(2) O país da não-inscrição
: "(...) o Portugal de hoje prolonga o antigo regime. A não-inscrição não data de agora, é um velho hábito que vem sobretudo da recusa imposta ao indivíduo de se inscrever. Porque inscrever implica acção, afirmação, decisão com os quais o indivíduo conquista autonomia e sentido para a sua existência. Foi o salazarismo que nos ensinou a irresponsabilidade - reduzindo-nos a crianças, crianças grandes, adultos infantilizados. (*)
O 25 de Abril abriu um processo complexo de luta intensa contra a não-inscrição (...). Simplesmente, o substrato da não-inscrição continuava vivo, e toda essa actividade frenética e delirante para inscrever a Revolução - escrevendo a História - não fazia mais do que alimentar a impossibilidade de inscrever, essa sim, inscrita no mais profundo (ou à superfície inteira) dos inconscientes dos portugueses.
Foi assim que o discurso político se tornou dominante na vida portuguesa. Num certo momento ele transvasou para a sociedade civil, identificando todo o poder com o poder político. As únicas oportunidades para inscrever o que quer que fosse da existência individual ou colectiva deviam necessariamente passar pelo poder político.
Foi assim também que a vida social portuguesa, agora pacificada, normalizada, viu a não-inscrição reassumir os seus privilégios em todo o esplendor.
E se tudo se desenrola sem que os conflitos rebentem, sem que as consciências gritem, é porque tudo entra na impunidade do tempo - como se o tempo trouxesse imediatamente, no presente, o esquecimento do que está à vista, presente.
Como é isso possível? É possível porque as consciências vivem no nevoeiro.
O que é o nevoeiro? (...) Não o da lenda, que é futuro e lugar de epifania, mas uma neblina presente que se apodera do interior da consciência e a rói, sem que ela dê por isso. Um <<branco psíquico>>, ou melhor, uma multiplicidade de brancos psíquicos atravessam a consciência clara, de tal maneira que, formam-se as maiores obscuridades e confusões. É o branco psíquico inconsciente esfarelando, fragmentando a consciência em mil bocados, cada um deles, no entanto, plenamente consciente no seu campo próprio.
O nevoeiro é o plano invisível da não-inscrição. Pode parecer estranho defini-lo como um plano e não como um volume, mas não se trata de conceber a melhor analogia de formas, mas sim de funções: o nevoeiro, ou sombra branca, não constitui, por exemplo, um <<meio>> ou uma atmosfera. Estas são vividas pelo sujeito enquanto aquele designa um estrato inconsciente que se aloja na consciência (na linguagem, nas imagens, nos afectos, nas sensações). É um plano porque é um buraco, uma lacuna, um branco onde faltou uma inscrição na consciência e no discurso. O que provoca transformações radicais no comportamento e no pensamento do sujeito."
:: (*) Poucos minutos após esta transcrição, recebi um telefonema da minha mãe a perguntar-me sobre o ano de inauguração de Portugal dos Pequenitos, que não visito há três décadas. Ficou uma vontade de revisita a este lugar de valor singular aos olhos da Criança no adulto maturo, que já lá pode inscrever-se na oitava seguinte.
(3) O espaço não público
: "Não há comunidade literária como não há uma comunidade artística ou científica ou filosófica. Há nomes, há mediatização de alguns desses nomes, há a grande preocupação de ser reconhecido no estrangeiro e, sobretudo, de transportar para Portugal o reconhecimento internacional: como se a resistência ao reconhecimento nacional fosse tão grande que só pela violência irrecusável de uma mensagem vinda de fora fosse possível aos portugueses cederem e acolherem o seu compatriota (e lhe reconhecessem valor). Compatriota exilado, pois, no seu próprio país.
Curiosamente, é por meio de comunicações pela net que os cientistas, laboratórios e institutos de investigação portugueses estabelecem redes e entram em intercâmbio com o estrangeiro. Entretanto, as comunicações intranacionais rareiam.
O espaço público, no sentido em que empregamos esta expressão algo inadequada, não é o lugar da <<opinião pública>> nem de manifestações colectivas, políticas ou outras. Mais mesmo do que um espaço de comunicação, é um lugar de transformação anónima dos objectos individuais de expressão. É a palavra <<público>> que não convém: porque esse espaço de transformações contém zonas de sombra, pontos imperceptíveis de ligação de forças, linhas invisíveis que traçam trajectos de energia. Este espaço <<público>>, sendo aberto, não se expõe necessariamente à luz.
Vê-se que o espaço público falta cruelmente em Portugal. Quando há diálogo, nunca ou raramente ultrapassa as <<opiniões>> dos dois sujeitos bem personalizados (cara, nome, estatuto social) que se criticam mutuamente através das suas crónicas nos jornais respectivos (ou no mesmo jornal). O <<debate>> é necessariamente <<fulanizado>>, o que significa que a personalidade social dos interlocutores entra como uma mais-valia de sentido e de verdade no seu discurso. É uma espécie de argumento de autoridade invisível que pesa na discussão: se é X que o diz, com a sua inteligência, a sua cultura, o seu prestígio (de economista, de sociólogo, de catedrático, etc.), então as suas palavras enchem-se de uma força que não teriam se tivessem sido escritas por um x qualquer, desconhecido de todos. Mais: a condição de legitimização de um discurso é a sua passagem pelo plano do prestígio mediático - que, longe de dissolver o sujeito, o reforça e o enquista numa imagem <<em carne e osso>>, subjectivando-o como o melhor, o mais competente, o que realmente merece estar no palco do mundo.
Muitas consequências derivam deste funcionamento do espaço (não) público, por ausência do plano anónimo de circulação de forças.
Encontramo-nos hoje numa situação particular, característica talvez da sociedade portuguesa: antes de acedermos a esse espaço - próprio da modernidade - e com ele experimentarmos os processos típicos da criação moderna (...), estamos já a tentar moldarmo-nos às figuras do novo espírito que nos vai lentamente invadindo, o da idade pós-moderna.
Ora, acontece que, por uma série de razões, esta adaptação do velho ao novo, este salto sem mediação do pré-moderno ao pós-moderno nos convém quase perfeitamente. Somos, neste sentido, (...) os melhores exemplos europeus de arcaicos pós-modernos.
(...) longe de criar uma zona de respiração e um fora, os média simplesmente amplificaram a comunicação social para novamente a fechar. A televisão e a imprensa estão em princípio abertas ao país e ao planeta inteiro; acontece que o que deles nos chega é filtrado pela auto-distorção a que os seus meios se obrigam.
A função dos média consiste em abrir o espaço da <<comunicação social>> (que difere do <<espaço público>>);
A televisão portuguesa é como toda a gente sabe (e com raríssimas excepções, que toda a gente também conhece) uma pura miséria, uma máquina de fabricação e sedimentação de iliteracia. E a rádio e a imprensa (sempre com as excepções que há em tudo) fecham constantemente as aberturas mínimas, as fendas e brechas por onde algum ar fresco, alguma força livre pudessem passar ainda.
Como uma instituição do Estado, [os média] estão ao serviço do cidadão (...); por outro lado escapam-lhe na medida em que a todos transcende. Deveriam ser um dispositivo essencial do poder público dos cidadãos: nesse sentido diferem dos aparelhos do Estado. A televisão, a rádio, a imprensa escrita têm vocação para construir o real quotidiano das comunicações concretas, não apenas das <<notícias>>.
O espaço público deveria ser aberto, mas fechando-se, limitando-se, permite que o telespectador, o ouvinte e o leitor sejam imediatamente absorvidos pela sombra branca ou dupla realidade com que se deparam.
É desta forma que a minha vida se insere na vida do mundo, não se inscrevendo nela. O espaço público, essencial à democracia, foi-me roubado. Roubado pelo sistema partidário, pelo sistema representativo, pelo sistema mediático transcendente. De uma vida nada se inscreve, nela nada sucede por efeito dos <<acontecimentos>> mundiais ou nacionais que o espaço dos média <<reportam>> ou <<comunicam>>. É, pois, um acontecimento <<para se comunicar>> não para eclodir no curso da minha vida. Nada mudou. A sombra branca estende-se e cobre o mundo inteiro que é Portugal."
:: Diria que este foi o capítulo que mais me impactou, indo além do sentido expresso pelo autor e contextualizando-o no presente, especificamente de 2020 em diante. O que ficou por demais evidente e senti invasivamente perante as sucessivas e abusivas imposições por decretos foi exactamente isso, a ausência de espaço público. Porque no regime em que vivemos, espaço público é entendido como propriedade privada do dito "Estado", gerido por governos eleitos por sofrágio pseudo-universal, que agem como entidades privadas, auto-legitimadas para mandar e desmandar em todo o espaço e seus habitantes, como se também nós fossemos sua propriedade. Não. Na questão proprietária, somos nós os proprietários do espaço público porque somos nós o dito "Estado" - denominação contaminada que dispensamos. O que não dispensamos, o que não dispenso, o que não dispensei e não deixei de inscrever durante aquele período é o direito a circular livremente no espaço público sem imposições que violam a minha consciência comprometida com a Verdade intrínseca à realidade, consciência que é a única a quem devo obediência - termo contaminado que não uso, antes traduzo em alinhamento - cuja negação tem um alto preço individual e colectivo ao qual o regime é alheio. O espaço não-público é, pois, o espaço do não-Ser.
Noutro paralelo, vi com esse olhar a expressão literalmente underground que invadiu a passagem subterrânea de uma estação de comboios que apenas atravesso, cujas paredes foram total e intensivamente preenchidas nesse período por palavras e actos anti-vigilância, concentrados naquele lugar assim eleito como espaço público, longe de olhares autoritários, por jovens que se querem inscrever mas não sabem onde nem como, porque a sociedade adulta não lhes dá referenciais de inscrição, limitando-se então às igualmente invasivas e impositivas tags que não assinam obra alguma que possam chamar sua, mas antes destroem obras de outros imprimindo desarmonia no espaço que tanto anseiam chamar seu, não o sentindo público, não se sentindo Ser.
O final do último parágrafo transcrito - "A sombra branca estende-se e cobre o mundo inteiro que é Portugal." - exprime duplamente quer a pequenez portuguesa quer a pequenez do mundo, confirmando que, enquanto sombra, o que se diz para Portugal diz-se para o mundo. Mas o mais significativo é que o mesmo se dirá enquanto Luz para o mundo. Já o foi e em breve o será em nova instância, espelhando para o mundo o significado manifesto de Universal.
(4) Que conhecimento da democracia
: "Gostaria de insistir num ponto: o legado do medo que nos deixou a ditadura não abrange apenas o plano político. Aliás, a diferença com o passado é que o medo continua nos corpos e nos espíritos, mas já não se sente. Um aspecto desse legado deixou uma marca profunda num campo específico: no saber, na hierarquia do saber-poder que Salazar promoveu, cultivou e utilizou em proveito directo do poder autocrático que instaurou. O efeito desse medo hierárquico faz-se ainda hoje sentir.
Porque na sociedade portuguesa actual, o medo, a reverência, o respeito temeroso, a passividade perante as instituições e os homens supostos deterem e dispensarem o poder-saber não foram ainda quebrados por novas forças de expressão da liberdade.
Quanto melhor conhecermos o funcionamento da democracia, quanto mais for partilhado esse conhecimento, mais probabilidades teremos de participar e aceitar uma prática democrática. E quanto mais essa prática se desenvolver, aprofundando-se na acção, mais problemas ela levantará, mais conhecimento exigirá não só dos mecanismos da democracia, mas de tudo o que eles envolvem do conhecimento do homem: o aprofundamento prático da democracia puxa pelo desenvolvimento do conhecimento nas ciências humanas.
Porque continua a haver um certo divórcio entre conhecimento e democracia e, mais especificamente, entre conhecimento da democracia e prática democrática.
Numa palavra, o Portugal democrático de hoje é ainda uma sociedade de medo.
Referir-me-ei apenas a três fenómenos [que mantêm esse divórcio]:
a. a ausência de <<espaço público>> na sociedade portuguesa. Mais uma vez, a característica essencial do <<espaço público>> é de constituir uma exterioridade, um <<fora>>. Fora que não existe em Portugal.
b. a não-inscrição. Em Portugal nada se inscreve, quer dizer, nada acontece que marque o real, que o transforme e o abra. É o país por excelência da não-inscrição. Em contrapartida, somos um país de burocratas em que o juridismo impera, em certas zonas de administração, de maneira obsessiva. Como se, para compensar a não-acção, se devesse registar a mínima palavra ou discurso em actas, relatórios, notas, pareceres - ao mesmo tempo que não se toma, em teoria, a mais ínfima decisão, sem a remeter para a alínea x do artigo y do decreto-lei n.º tal do dia tal de tal mês do ano tal.
c. Portugal tem uma sociedade normalizada. Significa isto que a vida individual e social do português encontra limites internos aquém dos que são a priori necessários para se estabelecer uma vida em comum. Limites que passam despercebidos, mas também impedem os indivíduos de experimentar ou criar alternativas em zonas essenciais da existência. A normalização da sociedade portuguesa actual resulta da tensão, e consequente neutralização, destes dois pólos: o pólo disciplinar que perpetua velhos reflexos de obediência, suscitando subjectividades pré ou protomodernas, e o pólo de controlo, em que os mecanismos regulamentares decorrem directamente do funcionamento tecnológico dos serviços e as subjectividades correspondentes tornam-se, por assim dizer, dispositivos programados, como um elo da cadeia das novas tecnologias que controlam gestos, comportamentos, corpos, afectos. O biopoder das sociedades de controlo fabrica subjectividades pré-formatadas. Digamos que o velho Portugal rural e pré-industrial fechado sobre si e o seu império colonial pertencia à categoria das sociedades disciplinares com as suas instituições correspondentes (escola, prisão, fábrica, exército, Estado autoritário, etc.). A entrada de Portugal na Europa leva-o na direcção das sociedades de controlo. Como consequência desta tensão, os hábitos de obediência e submissão que os portugueses trouxeram do autoritarismo salazarista mal começaram a desintegrar-se foram logo apanhados pelas tecnologias de controlo que surgiram. Que tipo de subjectividades está a resultar desta situação? Apesar de demasiado complexas, variadas e mutantes para serem descritas e classificadas rapidamente, um traço, no entanto, parece dominante: são subjectividades passivas que desposam a ilusão da actividade e da iniciativa. Ilusão, porque apenas se lhes oferece uma direcção única, a do controlo. É, aliás, o que os discursos político, económico, social, cultural das instituições e dos média não cessam de nos dizer. Não há outras vias (políticas, económicas sociais), não há outra maneira de viver, de educar, de instruir, de tratar, de organizar o lazer, de viajar, de se divertir, de amar. A abertura à Europa e ao mundo oferece-nos nesta sociedade normalizada a tecnociência ao serviço da globalização. Cercados por este <<fora>> que disponibiliza um sentido único, os hábitos antigos de <<dentro>>, quer dizer, da obediência disciplinar, depressa se moldam ao controlo dos dispositivos tecnológicos que se vão estendendo a todo o campo social. O horizonte dos possíveis encolheu terrivelmente. Mas não se dá por isso, porque o próprio desejo de o alargar desapareceu. O sentido único manifesta-se nos mesmos tom e plano do pensar da classe política, da esquerda e da direita; no mesmo tipo de crítica artística ou literária que praticam indivíduos diferentes, na mesma linguagem do prazer, na mesma e monótona maneira de colocar problemas em todas as esferas da vida. O empobrecimento do horizonte dos possíveis explicaria assim a apatia, a anestesia da sociedade portuguesa. Por exemplo, não é concebível, hoje, a abertura a outras dimensões existenciais como o quiseram e fizeram os movimentos literários e artísticos do séc. XX. Dir-me-ão que se faz actualmente outra coisa. Sim, mas no quadro da normalização da sociedade. Não se tenta sequer ultrapassar limites, porque apesar de cercados por todo o lado, por dentro e por fora, os limites são imperceptíveis. A própria normalização, resultado dessas limitações, impõe-se como o falso ilimitado dos limites, quer dizer, a norma omnipresente e invisível. Assim vão as subjectividades portuguesas. Não é este o maior obstáculo à democracia, à descoberta da vida livre e aberta?"
:: Um povo habituado à normalização, recebe bem outra normalização, especialmente quando esta outra lhe é apresentada como 'progresso' e 'prosperidade'. De normalização em normalização se confirma a ilusão que acima exprimi como aparentes avanços. Ilusão que se estende a todas as nações sob o mesmo fenómeno global, inverso ao Universal.
Curar o passado passa por conhecer a democracia para transcender a democracia como modelo praticado e esgotado. O que vem a seguir? Há quem aponte Ontocracia. Com esta ou outra denominação, a direcção é incontornavelmente a do Ser, em comunidade humana universalmente auto-governada. Não uma realidade abstracta mas uma realidade já em construção.
(segmento abaixo publicado em 10 Agosto 2023)
(5) O pequeno infinito
: "Na verdade, não se pode afirmar em absoluto que Portugal seja <<o país da não-inscrição>>. Porque se arranjaram álibis para não inscrever, criaram-se simulacros de inscrições - para que tudo ficasse num meio-termo indefinido, e os portugueses se convencessem de que estavam a inscrever quando estavam precisamente a fugir à inscrição. Circular por entre as pequenas coisas, investir nelas e logo desinvestir, conectar-se e a seguir desconectar-se dá a ilusão de movimento, de liberdade, de um desejar diverso, rico e múltiplo. Daí a ilusão de uma continuidade de movimento que traz consigo a inscrição de todos os presentes pontuais num tempo único (fora do tempo) como <<tempo>> do sentido de uma vida. Movimento realmente ilusório, pois esse saltitar de uma pequena coisa para outra não faz senão escamotear o sentido de uma inscrição que prolonga outra inscrição.
Assim se constrói um álibi de inscrição. Cria-se um circuito em que a inscrição (por exemplo, de um pequeno prazer) parece efectuar-se na pequena coisa, no acto que a elege; logo depois o desejo salta para outra pequena coisa, desapegando-se dela com a mesma facilidade com que a outra se apega. Forma-se a ilusão de um tempo contínuo de inscrição, quando de contínuo e homogéneo apenas se extrai a não-inscrição entre dois investimentos descontínuos em duas pequenas coisas. E assim se vai, de uma tarefa a outra, de um empreendimento a outro, de um afecto a outro, de um pensamento a outro. Sempre saltitando, em trânsito permanente para parte nenhuma.
Três consequências maiores decorrem do movimento no circuito do <<pequeno>> (objecto, amor, amizade, ideia, acção): 1. Porque a escala continua pequena e porque o sentido se esgota no investimento pontual na pequena coisa, nenhum Acontecimento vem dar sentido ao movimento (da vida e do mundo). Os sentidos que extraímos da experiência são também pequenos, porque a experiência reduz-se precisamente à zona que delimita e define a <<pequenez>>.
A este encolher, limitar, aprisionar do sentido no circuito empírico das pequenas coisas e dos pequenos prazeres, chamaremos o enclausuramento do sentido.
2. A ilusão de liberdade que já evocámos. É que além do movimento constante, ele próprio moderado, nem muito acelerado, nem muito lento, com que o indivíduo saltita, o pequeno designa ainda o espaço de deslocamento do corpo, plenamente à vontade. Ou seja, dentro dele não sente limites. Julga-se assim existir no infinito. Não passa, é certo, de um pequeno infinito, mas por ele vivido como ilimitado, sem entraves.
A este fenómeno, por enquanto aparentemente indestrutível, apesar dos golpes que vem sofrendo, chamaremos o síndroma de Liliputh.
3. Uma consequência da construção do mundo da <<pequenez>> traduz-se no uso da fala.
A fala - ou a escrita - representa uma condição essencial da inscrição.
Os portugueses não sabem falar uns com os outros, nem dialogar, nem debater, nem conversar. Duas razões concorrem para que tal aconteça: o movimento saltitante com que passam de um assunto a outro e a incapacidade de ouvir.
Mas a consequência maior da incapacidade de falar com o outro, e de o ouvir, é a impossibilidade de encontrar o <<tom>> que construirá o plano de inscrição das expressões verbais. O tom dá a intensidade adequada a partir da qual todo o tipo de fala (intensiva) é possível sem quebrar a conversa. Em Portugal ninguém procura o tom.
A este fenómeno, de incapacidade de construção de um plano de inscrição da fala, convém chamar o esvaziamento da palavra.
Como em muitos outros domínios, estamos a viver tempos de mudança. Não é verdade que a pequenez continue a ser a única bitola pela qual são medidos o espaço físico e o espaço mental.
De que tamanho somos nestes tempos de mudança? Que se levante a questão significa que ainda não ajustámos a nossa estatura real à imagem que dela possuímos. Com tantas imagens de nós todos os dias a indicar-nos uma medida, não atinamos com o tamanho certo. Este, aliás, só se alcançará quando finalmente nos abrirmos a outros povos, a outros países. O nosso verdadeiro tamanho medir-se-á então pelas trocas constantes que com eles tivermos. Constataremos que possuímos um tamanho variável, e que essa variabilidade necessária é função da capacidade de sermos nós (de nos expressarmos, de criarmos) sem dependermos de imagens forjadas por puro auto-espelhamento. Variabilidade própria do nosso tamanho que se exprimirá (em condições ideais) na sua máxima potência (porque estamos agora muito longe desse alvo). Deixaremos finalmente de perguntar <<de que tamanho somos nós, portugueses?>>, porque deixaremos de ter problemas de identidade."

:: Aqui, vem literalmente a propósito este símbolo, neste tamanho, conforme o usei várias vezes em mensagens da sequência IMpossible anterior, sem nenhum sentido redutor. Aqui, onde o tamanho importa, hesitei em transcrever excertos deste capítulo. Porque implica lê-lo por inteiro para interiorizar a amplitude e exactidão que oferece na compreensão da tendência redutora e intermitente da dinâmica psico-relacional em todas as esferas relacionais, que certamente não é um exclusivo português, mas claramente constato ao longo dos anos, desde muito antes de ter linguagem para o exprimir, e sentindo que mesmo que a tivesse, ou quando passei a tê-la, não era/sou compreendida, ou sequer ouvida. Porque não se investe continuamente na intimidade mútua que revela e constrói o Tom - que é mais do que Canal + Código afim entre emissor e receptor - porque tal investimento pede e gera um continuum evolutivo, mas a dinâmica preferida passou a ser feita de descontínuos a que as pessoas gostam de chamar (e justificar-se com) to-be-in-the-moment, numa sucessão que acaba por ser MENOS, não mais, do que a soma de todos os momentos. Prova disso é que as pessoas buscam somar momentos já como adições adictivas, pois a plenitude não é alcançada na intermitência fragmentada e fragmentadora da consciência.
A introspecção que possibilita é vasta, ao ponto de sentir que daria uma mensagem por si só, dando oportunidade de expor porque me mantenho no meu Posto solitário, sem me agregar a grupos e sem investir no que as pessoas gostam de chamar like-minded-people, que é uma completa ilusão, dada a natureza do corpo mental. Não que não tenha feito as minhas legítimas tentativas de exprimir sintonia onde ela parecia existir e de criar sintonia onde ela parecia não existir, mas o padrão que o autor tão bem descreve estando lá, acaba por emergir, invariavelmente. Onde pode parecer que me afasto, não, apenas deixo de ter iniciativa, onde se revelou que a iniciativa, na sua escala própria, era unilateral.
Não admira que a era da híper-informação e da híper-comunicação tenha conduzido à famosa dissonância cognitiva, resultante do ruído que torna inaudível o Tom e a inscrição que o mesmo INFINE no Éter.
Fiz questão de transcrever o último parágrafo integral, porque me ficou na memória deste livro a referência à interacção com outros povos como um factor essencial para o avanço. Tendo o livro sido escrito décadas antes da avalanche turística e imigratória para Portugal, temos hoje oportunidade de observar, no nosso próprio território, em que medida essa interacção tem sido benigna e nefasta, quer pelo lado da semelhança quer pelo lado do contraste. Porque ambos os lados podem contribuir para ampliar as esferas à escala do INFINITO ou reduzir ainda mais o infinito à escala da pequenez globalizada.
Vou dar 3 exemplos básicos que constatei por mim . . . ao andar na rua:
1. Existem imigrantes a viver em Portugal que fazem questão de deitar lixo ao chão, porque alimentam a crença, importada dos seus países de origem, de que essa é uma forma de manter, não tirar, postos de trabalho para os seus compatriotas, que, nessa escala, são conduzidos e se orientam ao emprego precário de recolher o lixo que os mesmos incentivam a deitar ao chão, importando e perpetuando essa mesma escala que porventura quiseram deixar para trás ao emigrar.
2. Existem restaurantes portugueses que passaram a ter à entrada junto ao seu nome a indicação escrita permanente "cozinha portuguesa", que parece ter-se tornado necessária, em Portugal.
3. Este ano, numa deslocação a uma área suburbana da grande Lisboa, o autocarro, que poucos anos atrás, antes da redução do preço dos passes de transporte, era quase vazio, mas passou a ser insuficiente para a actual densidade populacional predominantemente imigrante naquela área, encheu rapidamente ao longo das paragens, e no final não pude deixar de ver e sentir o desequilíbrio desproporcionado e o desconforto apertado de ser a única passageira de origem nacional num autocarro cheio, em Portugal.
Avançamos como povo e fazemos avançar os povos OU regredimos para passar a alimentar uma Colonização agora no sentido inverso? Enquanto os povos não aprenderem a distinguir entre normalização global e singularidade universal, essa será, ainda, a pergunta na ordem do dia. E Portugal tem uma responsabilidade acrescida na resposta e no exemplo a dar, que não deve ser confundido com inversão facilitista supostamente redentora do passado. Não se trata mais de mentalidades & identidades culturais, pois estas são e estão ambas colonizáveis e colonizadas pela globalização. Trata-se de quebrar, de uma vez por todas, o hábito de não-Ser, para gerar os espaços-órgãos-nações unitários dentro da Esfera Una que não anula a diversidade inerente à Matriz planetária terrestre.
(6) Da economia dos afectos
: "Portugal continua a ser, em muitos aspectos importantes, uma sociedade fechada, aberta à superfície, e fechada no interior. Actualmente, a reacção à abertura que se traduz pelo apego cada vez mais desesperado aos modelos antigos que legitimavam o fechamento não produz novas ideias, novos modos de adaptação, novos discursos éticos. Agarramo-nos ao que já conhecemos e ao que nos habituámos - e que em nós se sedimentou - como a uma tábua de salvação contra os flagelos que entram pela porta meio aberta (em breve, escancarada) ao mundo.
Na verdade, já nem aqueles modelos têm um papel predominante na vida nacional. Restam deles comportamentos reflexos, herdados, perdidos e que se retomam pontualmente. Por exemplo, a família está em degradação, nas grandes cidades.
O familiarismo envolvia por dentro o mundo português, desde a família popular até ao Estado (...).
O tratamento público que uma pessoa dispensava à outra copiava a relação familiar. No fundo, o modo como cada indivíduo se dispunha a tratar outro em qualquer situação implicava a amenidade, a proximidade, a familiaridade, a intimidade imediatas com que se aborda um parente.
Os portugueses eram todos parentes. O familiarismo induzia uma vasta promiscuidade social, a famosa <<gregaridade>> lusitana. É claro que outras clivagens (...) atenuavam este efeito, mas enquanto consequência da atmosfera política opressiva (era uma maneira dela se abrigar, insuflando afectividade pessoal numa vida materialmente, intelectualmente, espiritualmente e existencialmente pobre) (...)
Primeiro, criava uma espécie de cadeia contínua de corpos afectivos que, porque podiam exprimir o seu íntimo (familiar), sentiam menos a opressão cívica e política, assim como a ausência de um espaço público.
Em segundo lugar, nessa corrente afectiva em que todos eram irmãos (uma espécie de irmandade social nua) vivia-se inconscientemente qualquer coisa como uma democracia dos afectos: todos iguais porque todos humanos, nos mesmos sentimentos à flor da pele. Não afirmo que este fenómeno tenha resultado da repressão política, como uma compensação simétrica à humilhação e à desigualdade. Tendo também esse sentido, constituía antes de mais um terreno que favorecia consideravelmente o poder político. Porque essa suposta democracia afectiva, longe de libertar e dar direitos, seguia o modelo do familiarismo que fechava, aprisionava, encolhia os espíritos numa célula em que eles cultivavam a ilusão da igualdade e da fraternidade. Ilusão tanto mais fácil de fabricar quando a célula era atapetada com afectos.
Em terceiro lugar, a democracia dos afectos não era realmente afectiva.
Por outro lado, o espaço em que se exercia o familiarismo comportava uma extensa zona de sombra. Uma zona de clandestinidade do desejo. Com efeito, não nos referimos aqui à clandestinidade política, mas a um outro tipo de existência furtiva. (...A urgência do desejo era amplificada pela clandestinidade geral que o Estado moral repressivo impunha.)
Indiquemos um último aspecto da afectividade social do tempo da ditadura: curiosamente, a família e a relação social regida pelo familiarismo surgiam como os únicos lugares de possível inscrição do indivíduo.
A <<democracia afectiva>>, o familiarismo estão a afastar-se a olhos vistos da vida portuguesa.
Numa sociedade em transição, nada veio ainda ocupar o lugar desse tipo de afectividade social. À medida que se instala e sedimenta a democracia política, a subjectivação correspondente (o sujeito dos direitos democráticos) não se constituiu ainda, nem os direitos de cidadania, nem os simples reflexos de civismo foram interiorizados pelo português do pós 25 de Abril.
O 25 de Abril não libertou os corpos, senão formalmente, como não alargou o horizonte dos espíritos, senão teoricamente. Não foram os extraordinários e temerários princípios de liberdade substancial que os vários <<processos revolucionários>> propuseram e quiseram inscrever (pelo menos na Constituição), que transformaram o espaço dos corpos encolhido e enquistado pelo medo e os hábitos de submissão interiorizados durante décadas. A democracia formal criou as condições para a sua transformação mas não a realizou. Depois de várias experiências voluntaristas de abertura - logo abortadas ou engolidas pela prática e pelo discurso políticos - os corpos e os espíritos voltaram aos velhos padrões arquissedimentados.
O horizonte do espírito e do pensamento leva mais tempo a abrir-se e a alargar-se. Curiosamente, o processo de transformação representa uma violência que irrompe de fora para dentro, repentinamente, artificialmente. A União Europeia já entrou em nós e modificou o nosso mapa geográfico, as nossas leis, a nossa economia, fez desaparecer muitos comportamentos ancestrais, perturbou a nossa afectividade social, deslocando-a, pervertendo-a, abolindo-a em múltiplos casos.
Assiste-se, neste momento inicial do século XXI, a um esforço desesperado para afirmar Portugal, quer dizer, para que Portugal subsista, inscrevendo-se na Europa. Isto passa, fundamentalmente, pela inscrição da nossa imagem no espaço internacional (não pela inscrição do nosso trabalho, da nossa criação, no plano da produção e criação dos outros países).
Ora, todo esse esforço redundará em puro benefício vão, em simples gratificação do ego nacional, enquanto não inscrevermos também as culturas estrangeiras na nossa própria cultura. Como o poderemos fazer se não conseguimos sequer inscrever-nos a nós na nossa terra, na nossa história e na nossa existência?
A economia afectiva dos corpos mudou, enquanto os modelos mentais correspondentes não desapareceram ainda. O mapa material (demográfico, comunicacional, urbanístico) do nosso país modificou-se e com ele o mapa dos nossos investimentos afectivos. A paisagem é um corpo. Mas o horizonte espiritual do nosso povo inteiro, dos nossos homens políticos e dos nossos governantes, com excepção de certos artistas e homens de cultura, continua a ser o de antigamente, não tendo sequer integrado as transformações da cartografia do espaço físico e do tempo.
:: Este livro no seu todo e este capítulo na sua parte faz-me penetrar no mundo dos afectos pré 25 de Abril, época que vivi na infância, dando-me oportunidade de auscultar e detectar sob a maturidade de consciência actual a raiz de certos sentimentos e comportamentos na herança familiar e nacional. Como triagem civilizacional, permite-nos resgatar valores descolando-os dos padrões arcaicos com que se revestiram e restituir-lhes o seu legítimo lugar, impedindo que sejam arrastados pelas actuais correntes ideológicas de des-valor, incluindo no que diz respeito à Família, distinta do "familiarismo" descrito pelo autor.
Situando esse fenómeno do "familiarismo" na actualidade, notei um paralelo com o fenómeno que observei a partir de 2020, o qual descrevi como histeria colectiva - aquele típico comportamento humano da infância em idade adulta, artificialmente efusivo, de quem quer dar mostras de que está a 'portar-se bem' diante de figuras de autoridade instituídas, sabendo no seu íntimo que está a ser alvo de repressão ilegítima face à Lei Original. Dito de outra forma, essa histeria é uma reacção compensatória perante a violação à consciência, em vez de abordar a própria violação.
Ou seja, este capítulo dá-nos uma perspectiva localizada do quanto os mecanismos de manipulação e perversão psíquica desse passado estão presentes na actual condução global dos governos locais. Exemplo disso é a redução da Constituição da República Portuguesa a um instrumento governamental ao serviço dessa condução global. Na conjuntura que se manifestou a partir de 2020, já vinha pressentindo que qualquer mexida na Constituição durante a vigência do actual governo e presidência seria um perigo - eis a confirmação (referindo-me à parte sanitária), que equivale a dizer 'vamos alterar a constituição para podermos exercer a tirania sanitária à vontade'. Não por acaso nunca tive tendência para usar o termo 'anti-constitucional' para apontar ilegitimidades do sistema legal, porque não reconheço à partida a Constituição como um documento inviolável, assim como não o é a Declaração Universal dos Direitos Humanos e todas as declarações que dela decorrem.
O próximo título assume desde já uma pertinência bem actual . . .
(interlúdio abaixo publicado em 31 Agosto 2023)
Interlúdio Visionário Porque acabando de publicar nesta data um conjunto no Círculo 10 (pt/en), não posso deixar de fazer a ponte com o conteúdo desta mensagem, exactamente neste ponto. Porque quer a minha tomada de conhecimento daquele evento (também aqui hiperligado na imagem) quer a minha ida à janela foram movimentos sincrónicos, como cada vez é mais tudo nos meus trânsitos. Então, evocando de novo a capa do livro na edição original, vale afirmar aqui e agora: HUMANIDADE, Hoje Superando o Medo de Existir |
(segmento abaixo publicado em 10 Setembro 2023)
(7) De que é que se tem medo?
: "Quando se trata de outros corpos, o contacto parece conter uma ameaça.
Tanta precaução indicia uma recusa do enfrentamento.
Debaixo da precaução, da cautela, da desconfiança, habita o medo. Como se, à maneira de certas teorias do contrato social, o laço de sociabilidade e o Estado se tivessem instaurado para esconjurar o medo, a insegurança e a vulnerabilidade que reinariam no estado de natureza. Em Portugal, esse mesmo mecanismo teria em parte falhado: daí a fraqueza histórica do nosso Estado, a permanência, a infiltração e a disseminação do medo por todo o campo social. Correndo até por debaixo da película finíssima que o separa das atitudes supostamente construídas para o combater - a prudência, o evitamento do conflito aberto, a afabilidade das relações sociais.
(...) a violência em parte transformada em medo, o medo da violência em parte metabolizado em brandura, doçura, amenidade. O que não implica civismo, mas uma inversão da violência e da agressividade primeiras (ou ainda, da tendência à afirmação da potência), sem que isso signifique necessariamente a interiorização de uma lei (que seja o comportamento cívico).
Teríamos assim uma sociedade civil não violenta à superfície mas com um medo disseminado protegendo os indivíduos contra uma violência subjacente só parcialmente sublimada, quer dizer, transformada e investida em outros objectos. Isso explicaria vários aspectos da sociedade portuguesa: o mito dos <<brandos costumes>> que reina à superfície escondendo uma violência real subterrânea; a força e a fragilidade (conforme as circunstâncias) da sociedade civil, pouco elaborada em termos de instituições e muito forte na afectividade social imediata e na cultura popular (porque o Estado e as classes ricas não criaram condições para o desenvolvimento de culturas próprias); a função extraordinária, ainda hoje, do medo, como afecto paralisante da agressividade social.
Devemos também ter em consideração o medo segregado pelo Estado Novo, uma vez que veio reforçar os dispositivos já interiorizados e vocacionados para acolher e estratificar mais cargas de temor, desde os comportamentos de obediência e submissão, às finas estratégias para o esconjurar e que, por isso mesmo, alimentam a sua existência em estado latente.
O medo entranhado, o medo incorporado, o medo sem objecto (...) e, no entanto, ubíquo, companheiro de todos os instantes, doença que se agarra à pele do espírito e por isso não se vê, podendo-se mesmo não sentir como se em nós não estivesse inscrito. Este foi indubitavelmente o medo produzido pela sociedade salazarista. Falo do homem comum, não do oposicionista, sempre claramente ameaçado pelo poder. O medo exsudado pelo salazarismo é um exemplo típico do nevoeiro ou sombra branca.
O medo herda-se. Porque interiorizado, mais inconsciente do que consciente, acaba por fazer parte do <<carácter dos portugueses>> (ditos <<tristes, taciturnos, acabrunhados>>), integra-se no <<impensado genealógico>> (...) que passa de pais para filhos, de geração em geração.
Hoje, trinta anos depois do fim do regime do medo, convivemos ainda com ele. A sociedade portuguesa, os portugueses não perderam o medo, ainda que (ou talvez por isso) as novas gerações pouco saibam do passado salazarista.
Ora, uma das características desse medo, é a de, aparentemente, não se inscrever. Ou de se inscrever metamorfoseando-se de tal maneira que se torna irreconhecível. Para tanto contribuiu, mais uma vez, o modo como o 25 de Abril (e o processo que se lhe seguiu) varreu das consciências o regime anterior.
O medo salazarista e o nosso não se inscrevem porque não são conscientes.
O medo é uma estratégia para não inscrever. Constitui-se, antes de mais, como medo de inscrever, quer dizer, de existir, de afrontar as forças do mundo desencadeando as suas próprias forças de vida. Medo de agir, de tomar decisões diferentes da norma vigente, medo de amar, de criar, de viver. Medo de arriscar. A prudência é a lei do bom senso português.
O medo que reinava no antigo regime passou a outro registo, sem desertar dos corpos. (...) No Estado autoritário segue a via piramidal, do cume para a base; no Estado democrático os seus trajectos inflectem-se para o plano horizontal.
Não desapareceu na relação de submissão hierárquica, subsiste, claro, mas com muito menos força. Outro, diferente, surgiu e estendeu-se por toda a superfície social. O medo do rival, do colega, dos outros candidatos ao mesmo lugar, à carreira, ao emprego, quer dizer, o medo de todos os outros. Medo extraordinariamente agravado pela subavaliação que o indivíduo faz de si mesmo, julgando-se sempre abaixo do nível exigido, nunca à altura do que se lhe pede.
O esmagamento a que os portugueses foram sujeitos durante o salazarismo manifesta aqui um dos seus efeitos. Ninguém se julga capaz, toda a gente se sente inferior à norma ideal de competência. (...) Aqui o medo desdobra-se e age, imaginariamente, transformando-se em temor de ser apontado publicamente como incompetente. Esconde-se, criando um ecrã que dá continuidade aos velhos expedientes, próprios da sociedade autoritária, para parecer o que não é. A maioria dos esforços vão no sentido de manter essa máscara (...)
O medo é medo do poder, mas também da impotência própria diante do poder. Medo de não saber e de ser desmascarado. Medo de ter medo. Medo de parecer ter medo, de parecer fraco, incapaz, ignorante, medíocre. (...) A imagem de si (ideal, imaginária, ditada pela norma não menos imaginária do político-social-moral-psicologicamente correcto) impõe regras de comportamento, interioriza interditos, autocensura o indivíduo. Constitui um limite severo à livre expressão, ao pensamento e à acção livres. Sair das fronteiras definidas pela norma equivale a arriscar-se a adoptar uma imagem de si autodestrutiva - de tal maneira esta sociedade não dispõe nem propõe alternativas de vida à única norma dominante.
É preciso lembrar que a imagem de si, forjada pela lei, inconsciente ou semiconsciente, age sem cessar, como uma espécie de panóptico a que os indivíduos não podem fugir. Está no ar, na atmosfera, quer dizer, no olhar dos outros e, pior, no olhar interior do superego que todos corrói.
É por isso que, quando se forma uma concreção de poder que combina velhas estruturas hierárquicas com a relação paranóica democrática, é esta que geralmente alimenta aquelas, abrindo o espaço para o exercício de poder de pequenos déspotas (que podem surgir na administração, nos poderes públicos, nas empresas, nas escolas, nos partidos políticos), sempre prontos a pôr logo em funcionamento dispositivos panópticos que constroem a imagem de si.
A imagem de si, enquanto produto específico do panóptico português, tem um efeito devastador, absorve as forças vitais do indivíduo, desenvolvendo uma entropia imparável.
A imagem de si culpabiliza, e as avaliações e os exames diminuem as poucas forças internas capazes de mobilizar os indivíduos, porque estes sofrem fundamentalmente de qualquer coisa como uma desvalorização do seu ser, de uma falta ontológica que faz com que estejam convencidos, no seu foro mais íntimo, de que <<não estão à altura>>, de que são inferiores aos outros (os de <<lá de fora>>). Este complexo, dito de inferioridade, não desapareceu ainda da alma dos portugueses.
Eis porque as avaliações - e quer-se agora tudo avaliar: as escolas, as universidades, as empresas, os hospitais, as rentabilidades de toda a espécie - não vão transformar a sociedade portuguesa. Longe de lhe insuflar força anímica, retiram-lhe energia, envergonham-na sem a estimular.
Há pois que considerar o medo não tanto como um sentimento ou uma <<paixão>> (...), ou mais geralmente como um afecto que atinge uma maioria de indivíduos de um grupo social determinado, mas como um sistema que condiciona directa e decisivamente mecanismos macrossociais.
Enquanto dispositivo mutilador do desejo, o medo predispõe à obediência. Amolece os corpos, sorve-lhes a energia, cria um vazio nos espíritos que só as tarefas, deveres, obrigações da submissão são supostos preencher. O medo prepara impecavelmente para a lei repressiva se exercer.
Mas, uma vez mais, os portugueses imprimiram uma torção à relação com a lei que, sob a aparência de lhe escapar, reforça os seus efeitos de poder. Esse medo incorporado devia conduzir a uma severa e rigorosa obediência à lei, mas não é o que acontece. O português adquiriu, dentro de certos limites, reflexos de não obediência à lei. Não obediência não significa desobediência, pelo contrário, é uma maneira de escapar ao ditame estrito dentro do próprio âmbito da lei. Escapa, pois, não escapando à lei geral.
(...) como se a vida virtuosa e a cidadania perfeita resultassem do mais rigoroso cumprimento da lei."
:: Falar sobre este capítulo é falar sobre um capítulo da existência humana que atravessa a História transtemporalmente, porque não cabe apenas em 1 período de duração de 1 regime autoritário em 1 nação. Aqui, a introspecção precisa de penetrar as profundezas que necessariamente marcam a existência individual localizada no seu tempo-espaço e se estendem transgeracionalmente e globalmente através de mecanismos perfeitamente justapostos aos modelos civilizacionais dominantes em cada época. Onde História deixa de ser facto e passa a ser narrativa selectiva e interpretativa, eliminar vestígios do passado é eliminar a raiz das heranças que assim permanecem no inconsciente, sem a correspondente associação. E aqueles que trazem no seu consciente as memórias vivenciais de regimes traumáticos não encontram espaço no tempo para passar o correspondente testemunho, como forma legítima de Cura que encerra ciclos cármicos em vez de os perpetuar. Na minha vida tenho constatado e afirmado que, em termos de Carma, o que vem ao meu campo é para terminar em mim.
Uma vez que a sequência I.M.possible Future foi impulsionada pelos eventos de 2020 em diante, vi-me interromper a transcrição dos excertos acima no ponto em que o autor menciona o chamado "complexo de inferioridade" para fazer a seguinte anotação que se desdobrou assim:
O complexo de inferioridade inverte para superioridade a passa a revestir-se de narcisismo, seja do lado da autêntica mediocridade seja do lado da autêntica excelência, no primeiro caso ocultando-a, no segundo caso exibindo-a, sempre tendo em mira o olhar dos outros, que é o ponto crítico de todos os mecanismos psicológicas de defesa e de compensação. Uma vez que um Ser se situe no centro de Si, não se avalia segundo o olhar dos outros, portanto o medo dos outros dissolve-se. As máscaras dão lugar a uma transparência que liberta o Ser perante si mesmo, mas não o livra das projecções de outros que ainda não suportem a transparência e precisem de lá colocar uma máscara, sua, não do Ser diante deles - eis aqui o que ocorre no meu caso: como nunca houve máscaras que se colassem em mim e a tendência seja à transparência, inadequação é o que o olhar dos outros tende a registar. Dá para entender muita coisa no psico-fenómeno 2020+ não é? Quer no sentido estrito quer no sentido lato, os outros emitem 'Olha para mim a usar máscara por ti, como é que te atreves a não usar máscara por mim?!', e eu não tenho outra opção senão emitir 'Porque sinto interna e externamente que não tenho do que me proteger no sentido emitido pelos outros e sinto que aquilo de que tenho realmente de me proteger e de nos proteger não se pode proteger usando máscaras, físicas ou psicológicas, porque o que não pode proteger o próprio também não pode proteger o outro, e já agora o mesmo se aplica à dita 'imunização', que também esperas que eu cumpra por ti'. Observa-se que o fenómeno permaneceu explícito em muitos que nunca mais largaram a máscara física (como era previsível nesses) e latente em muitos outros, nestes bastando a menor alusão ao agente provocador do medo para voltarem às máscaras físicas. O psico-fenómeno somente persistirá enquanto a humanidade não fizer o caminho de retorno a Si. E para isso, é preciso que haja quem dê a conhecer e ajude a reconhecer a raiz do medo em si, de origem local e global. Eis o contributo imperativo deste livro. Não admira que comece por deprimir as pessoas mais investidas em cumprir a máscara do que em cumprir-Se.
Esse tipo de cumprimento externo reflecte uma submissão ao "despotismo jurídico", por ausência de discernimento próprio a partir da consciência interna. Neste ponto, fiz questão de incluir o penúltimo excerto para dar testemunho para além da importante distinção que o autor faz entre "não obediência" e "desobediência". A primeira atribuo a uma aparente/falsa rebeldia que pode até traduzir-se em não cumprir uma lei ou decreto, mas assegurando-se de deixar bem claro que se é um seguidor e cumpridor do "sistema" que origina tal lei ou decreto. A segunda já implica alguma desvinculação face ao "sistema", mas ainda reflectida numa polarização. Neste âmbito traduzo antes a minha postura em termos de participar no que me corresponde em consciência e não participar no que não me corresponde em consciência, sem sequer me referenciar ao "sistema" como base. Reiterando o que disse numa mensagem anterior, agindo em consciência, legislação tende a ser dissonante ou redundante, daí que uma civilização avançada precise de menos, não mais, leis. Naquela em que vivemos, leis são tanto mais consensos forçados e impostos de fora para dentro quanto mais são afastados da Lei Original que está na base da consciência como Código de Conduta arquetipicamente originado e singularmente configurado pelos constituintes próprios de cada Ser. É esta que ansiamos cumprir rigorosamente, não uma imagem sombria da mesma projectada por um sistema que lhe é alheio.
É do cumprimento desta LEI que emana a Paz Profunda, inconfundível com a pequena paz superficial que tolhe a humanidade em conformismo e condescendência normalizados. O que constatei amplificadamente em 2020 e se instalou como norma automática desde então entre os cumpridores do sistema é que quem se submete e se contenta com essa paz superficial não suporta quem a perturba para abrir caminho dentro e fora para a autêntica Paz. E se isso foi sentido com dor e deixou marcas nas relações pessoais, foi com profunda dor que constatei o mesmo entre aqueles de quem seria de esperar uma posição de vanguarda em consciência, sobretudo quando em assumida 'mentoria influente' para os outros antes de reverem as suas próprias crenças, científicas ou espirituais, formadas por hábitos de pensamento solidificados por conceitos tomados e emitidos como finais. Realmente esses eventos serviram e têm continuado a servir para tornar transparente onde cada um se situa, deixando claro que a etapa de Purificação não se detém diante de máscaras, usa-as antes para expor o medo oculto que pede para ser reconhecido e transmutado pelo contacto com a Verdade imanente, a única que definitivamente põe fim aos equívocos consensuais propagados como reais.
No âmbito comportamental, que é o alvo da matriz de controlo, se existe o que se possa chamar de medo legítimo, será o temor interno pelas consequências internas do não cumprimento da consciência interna, que repercute externamente como estagnação involutiva, individual e colectiva, cuja admissão resignada deixou de ser uma opção nesta fase final da presente etapa evolutiva.
(segmento abaixo publicado em 30 Setembro 2023)
(8) Queixume, Ressentimento, Invejas
: "Não é só o medo, a burocracia, o apego a privilégios e hábitos antigos, que entravam o movimento e a dinâmica da sociedade portuguesa. Outros factores, às vezes imperceptíveis mas não menos eficazes, retiram energia e forças aos indivíduos e aos grupos sociais.
Nunca, ou muito raramente, os relatórios e inquéritos se referem a esses factores microscópicos.
Não sendo uma característica especialmente portuguesa, mas encontrando-se em todo o tipo de sociedade, [a inveja] tem em Portugal um terreno de eleição. Por várias razões: porque (...); porque (...); porque (...); porque um dos laços mais fortes da sociabilidade política (que substitui, em parte, o laço de cidadania, muito fraco) é o queixume - cuja relação com a inveja é das mais estreitas; enfim, uma última razão parece decisiva para dar às invejas um lugar privilegiado na sociedade portuguesa actual: o facto de esta sair de um regime de desvalorização, humilhação e mutilação das forças de vida do indivíduo. Na escala do <<pequeno homem>>, impedidas de se desenvolver e expandir, essas forças voltaram-se contra si próprias (...) não directamente contra o sujeito (...), mas contra o <<outro>> (...).
Quem era o <<outro>>? Uma instância indefinida que designava todos os outros indivíduos da colectividade em geral e nenhum em particular; mas que podia subitamente encarnar-se em tal ou tal pessoa concreta. O <<outro>>, afinal, eram todos, era o país.
Assim cresceu, de maneira desmesurada, um sentimento complexo, misto de ódio, ressentimento, desprezo, asco, indignação resignada contra <<o país>>. Sentimento tão espalhado que quase se pôde considerar, durante um tempo, como um traço da identidade lusitana.
É neste contexto de forças que se deve situar a inveja. Forças poderosas de ressentimento resultantes do esmagamento das forças de vida e da sua transformação em forças de morte.
Formou-se deste modo uma sociedade paradoxal, em que um dos aspectos importantes dos laços de sociabilidade consistia em recusar esse mesmo aspecto da relação política. (Complementar, inverso e simétrico deste, um outro fenómeno se desenvolveu ao mesmo tempo, nas camadas cultas da população: a crença na genialidade pessoal, com as mais diversas expressões megalómanas. O número de artistas, escritores, pintores, estudantes, intelectuais que se julgavam génios durante o salazarismo era incontável. Fenómeno de compensação imaginária, habitual em todas as ditaduras, ao que parece: nos países do Leste, recentemente libertados, os génios imaginários pululam, como ainda hoje em Portugal.)
Situar a inveja neste contexto significa considerá-la dentro de um meio em que todas essas forças (...) se contaminam umas às outras. É dentro de um banho de ressentimento que melhor se desenvolve a inveja. É no queixume implícito de se achar a si mesmo pequeno que se inveja alguém que pretende ser maior. Na <<democracia afectiva>> do salazarismo, o nivelamento fazia-se sempre por baixo: o sentimentalismo definia o ser humano reduzido, pequeno, infantilizado.
Como vimos, agimos quase sempre indirectamente. Sendo a inveja, já por si, um meio indirecto de influenciar, os seus mecanismos são, no nosso país, duplamente dissimulados, confundindo-se facilmente com um comportamento normalmente valorizado e aceite.
Mais precisamente, a generalidade da acção da inveja em Portugal é tão vasta que, tal como o medo, constitui um sistema. Os efeitos do sistema das invejas não são visíveis: ora paralisantes, ora desaceleradores de uma dinâmica, ora descarriladores, provocando acidentes em catadupa, adiamentos sucessivos, etc.
Note-se, antes de mais, que a inveja implica uma relação de forças. Joga-se, na inveja, uma luta pelo poder de que sairá um dominante e um dominado. Por isso a inveja entra na categoria das <<relações de influência>>.
Com efeito, não basta considerar o que o sujeito vive quando se sente invejoso. A inveja, enquanto sentimento, tende imediatamente a agir sobre o invejado. Não é por acaso que <<as invejas>> pertencem ao vocabulário da bruxaria. Como sistema de práticas e representações que visam dar inteligibilidade a certos fenómenos de influência, a feitiçaria percebeu e interpretou relações subtilíssimas de que a acção da inveja faz parte (em particular o <<mau olhado>>).
É possível descodificar de modo racional este tipo de influência, alargando o campo da racionalidade com conceitos novos adequados aos mecanismos de captura, domínio e subjugação que a inveja supõe. <<Pequenas percepções>>, <<osmose>>, <<devir-outro>>, <<formas de forças>> constituem alguns desses conceitos.
Uma condição prévia deve existir para que a inveja seja eficaz: que a futura vítima se encontre em estado de receptividade inconsciente, quer dizer, de vulnerabilidade particular (o que a terminologia da feitiçaria portuguesa designa por <<ter o corpo aberto>>). Como se define esse estado de vulnerabilidade? Pela indeterminação da vontade e dos desejos do sujeito, pela hesitação mínima quanto às opções afectivas a tomar. Como se diz comummente, o indivíduo <<não sabe o que quer>>, ou <<não tem uma personalidade firme>>. Ou ainda: o seu poder sobre si é frágil, pouco definido; o seu poder de afirmação não se manifesta; a sua vontade de poder é débil, etc. Resumindo, é alguém facilmente influenciável.
Ora, essa constitui a condição geral dos portugueses.
Assim começa o processo de captura. Inveja-se uma pessoa porque ela ostenta algo (um dom, um bem, riqueza, beleza, coragem, inteligência, etc.) que falta ao sujeito e que este quereria possuir. <<Lança-se>> a inveja, e a acção da força que o olhar ou a palavra transporta imprime-se no espírito da vítima. Capta-o, submete-o. O invejado passou do estado livre ao de aprisionado: está doravante <<sob influência>>.
Interessa-nos mostrar dois aspectos do sistema das invejas: 1. que a inveja pode adquirir paradoxalmente uma transcendência, ultrapassando a relação dual, e passando a circular em grupo. 2. Que o sistema de não-inscrição convém particularmente bem ao desenvolvimento do sistema de invejas.
[1.] Que existem grupos de inveja que funcionam com invejas, no regime da inveja (captura, nivelamento, entropia), na obsessão da inveja - decorre quase automaticamente das condições sociais propícias à eclosão e à proliferação das invejas.
Primeira condição, o fechamento do grupo. Voltado para si próprio, sem <<fora>>, o seu ar estagna e a sua atmosfera homogeneiza os comportamentos latentes, prontos para o ressentimento e a agressividade. A diversidade, o imprevisto e o acaso desaparecem. Enquanto nada da hostilidade subterrânea transparece senão indirectamente, instala-se em cada indivíduo um desassossego que o torna cada vez mais vulnerável.
A atmosfera é, nestes casos, essencial à circulação da inveja. As condições meteorológicas manifestam então uma sensibilidade extrema e invisível ao mínimo apelo à definição de territórios de subjectivação. (...) À mínima ameaça de invasão de um terreno alheio, precipitam-se os mecanismos de subjectivação da inveja.
Isto pode acontecer (...) sempre que um laço preferencial se ate entre duas forças que drenem com elas um mesmo desejo por um objecto. Nasce então a rivalidade que exacerba o fechamento do campo.
A constituição de um grupo de inveja não resulta unicamente da generalização a todos os elementos do grupo de uma relação entre dois indivíduos (sucedendo isso, amiúde, por contágio, em atmosferas fechadas e deletéreas). Mais finamente, a própria possibilidade da extrapolação da inveja ao grupo inteiro está já contida na relação a dois. (...) Ao projectar-se sobre o outro, a inveja produz sempre uma espécie de efeito de ricochete, como se o invejoso ficasse também minimamente prisioneiro da inveja que lançou. Esta volta-se, pois, contra o seu agente (...), adquirindo um começo de autonomia que a atmosfera contagiante acaba por perfazer, dando-lhe um aspecto transcendente. O grupo ganha uma atmosfera específica (com as características próprias de densidade, viscosidade, velocidade de partículas, vectores de fluxos) que permite denominá-lo grupo de invejas. Existindo na atmosfera, agora a inveja subsiste por si, evolui por si, ataca por si. Como um v í r u s.
Por conseguinte, passou a ter uma existência social. Um dos seus efeitos possíveis imediatos é a paralisação de toda a dinâmica do novo. O que surge como diferente aparece como uma ameaça à igualdade que a inveja protege. Igualmente niveladora por baixo, como vimos, porque impede a expressão da singularidade: toda e qualquer manifestação de originalidade é considerada superior e rejeitada. O rumor, a calúnia, as estratégias múltiplas de exclusão que se desenvolvem no quadro do funcionamento do grupo acabam por vencer e eliminar o elemento novo que irrompia.
2. Numa sociedade regida pela não-inscrição, a inveja parece visar precisamente o contrário, a efectuação, a acção no real. No entanto, a inscrição da inveja não passa de um simulacro de inscrição.
Em primeiro lugar, não esqueçamos que tudo aconteceu na sombra, por entre os grandes comportamentos e acontecimentos da vida social. É fora do espaço das instituições e do poder que a inveja quer exercer um outro tipo de domínio.
Em segundo lugar, a inveja não inscreve, marca. E que marca quer ela imprimir no invejado? Precisamente, a marca do contrário da inscrição no real. O que a inveja (ou o <<mau-olhado>>, na expressão do discurso da feitiçaria) pretende é fazer vir à tona o efeito da sua acção clandestina: mostrar a todos a desgraça, o infortúnio que atingiu a vítima, obrigar a que esta apareça marcada pela má sorte e, de certo modo, excluída do curso do tempo social normal.
Neste sentido, a marca surge mesmo como o avesso da inscrição. Enquanto esta abre o real, aquela destrói e tende a liquidá-lo. É, no fundo, o desejo de impedir que o outro (o adversário, o invejado) se inscreva, produza, sobressaia que guia o invejoso. A marca visa a captura e a apropriação.
Uma outra força do afecto que contribui para a inércia da vida social é o queixume.
Basta-nos agora assinalar o seu desaparecimento progressivo durante (...) a época de fartura (...).
(...) o queixume privado quase desapareceu. Para ocupar o seu lugar desenvolveu-se, neste princípio do século XXI, o protesto, a indignação, a contestação.
O que constitui sem dúvida um bom sinal. Sinal de que o povo tomou mais consciência dos seus direitos, mais consciência de que o Estado é ele, e de que os governos retiram a sua legitimidade da sua vontade. Sinal talvez de que o português, individual e colectivamente, ganhou vergonha de se queixar, quer dizer, de passar sempre para os outros ou para qualquer instância metafísica (o <<destino>>) a responsabilidade dos seus actos.
Que força ética resta àqueles que não param de se queixar, achando-se vítimas da sociedade e dos outros, da infância e da má sorte, e fazem disso o sentido das suas vidas? Habitados pelo ressentimento, permanentemente ressabiados, vivem efectivamente no ciclo mortífero do ressentimento > inveja > vingança indirecta. Quer dizer, julgando lutar para reconquistar o pequeníssimo e ridículo poder a quem julgam que o roubou, são apanhados por um movimento obsessivo que os torna efectivamente impotentes.
Mais uma vez: estas descrições de afectos, das suas causas e dos seus efeitos pretendem não se reduzir a meros exercícios fenomenológicos. Mas ambicionam mostrar como os afectos, enquanto forças individuais, interpessoais e colectivas, constituem sistemas poderosos em que se joga, às vezes decisivamente, a dinâmica e o trabalho de um grupo."
:: Decididamente um capítulo denso, mas absolutamente necessário para identificar a raiz de dinâmicas nefastas dissimuladas sob aparências legítimas, assim como de dinâmicas legítimas deturpadas e reduzidas por hábitos individuais e colectivos adoptados e estabelecidos como norma. Do ponto de vista das nações em geral e de Portugal em particular, emular modelos sociais e civilizacionais que não correspondem à génese de um povo, quer como mecanismo de compensação grandiosa pela pequenez incutida supostamente para se igualar aos grandes, quer pelo castrador reducionismo nivelador por baixo, imprime e emite uma nota dissonante de falsidade e artificialidade que cria sombra na psique colectiva e polui as esferas no éter.
Superar a polarização pequeno-inferior vs. grande-superior, como factor gerador de inveja perante alguém que "pretende ser maior", transcende a pretensão e traduz-se antes na tomada de consciência de que as escalas reais de um Ser não podem ser contidas nem medidas seja por pequenez seja por grandiosidade, pois na real Ordem de Grandeza tudo e todos ocupam o seu legítimo lugar e função no palco planetário, quer o saibam e o cumpram quer não. Quem está no caminho consciente de retorno a Si, Aqui, não Se reduz nem Se engrandece, auto-revela-Se através dos seus constituintes imanentes da sua Totalidade, na medida correspondente à orientação internamente estimulada. Portanto a autêntica distinção a fazer entre uns e outros é que para quem está nesse caminho por desígnio interno, cumpri-lo não é uma escolha opcional, é uma escolha imperativa. Que esta seja vista como superioridade por parte de uns e outros é uma deturpação sabotadora que urge superar se queremos ver avanço na humanidade, ao invés de retrocessos a regimes autoritários dissimulados sob aparências de nova ordem e progresso.
À semelhança do que disse no capítulo anterior, essa superação liberta o Ser perante si mesmo, mas não o livra das invejas de outros que ainda estejam retidos na polarização, que assim ainda irão sentir que aquele Ser pretende-ser-maior-do-que-eles. E, novamente, eis aqui o que ocorre no meu caso: como reducionismo e dissociação nunca foram opções para mim, tendendo a contemplar, observar, questionar e ampliar cada coisa à sua escala original e contextual, relevância além circunstancial com atenção a detalhes e captação de nuances e ligações, tudo constituintes inatos que emergem como primeira natureza e se revelam instrumentais na captação e tradução, verbal e não-verbal, da realidade, superioridade é o que os outros tendem a registar. Porém, posso dizer (e tenho dito!) ao outro, "Eu nunca te reduzo, és tu que te reduzes." E o mesmo digo a Portugal. Eu Sou espelho das escalas reais, não por opção, mas por emanação. A deturpação ocorre no outro, enquanto o outro estiver identificado a uma imagem de si igualmente deturpada.
Não por acaso, tanto a inadequação como a superioridade surgiram na minha psicoterapia em 2000. E se a compreensão da primeira foi profundamente libertadora pela auto-correcção das incontáveis vivências familiares e sociais, a segunda deixou um conflito de dissonância face a uma verdade interna que ainda não tinha condições de verbalizar e que só viria a compreender por inteiro com o passar dos anos, permitindo-me fazer o verdadeiro enquadramento retrospectivo e prospectivo nos termos próprios que acabei de descrever. Isso dissolveu o conflito, também e sobretudo no que ainda o ligava à inadequação. Nenhuma abordagem terapêutica será suficiente sem o auto-conhecimento que atravessa o histórico multigeracional familiar, social, nacional e global, não para nos reter nessas heranças, mas para nos libertar e nos devolver à Arte de Ser Total pelo Retorno à Essência. Na minha psicoterapia, mais do que a psico-análise, é essa reconexão consciente com a Fonte Interna que tenho a agradecer.
Hoje, ocupando o meu Posto, simultaneamente imutável e transmutante, vejo os trânsitos do mundo do princípio ao fim e do fim ao princípio, como quem olha simultaneamente da nascente para o oceano e do oceano para a nascente, com todo o fluxo que corre entre os dois nas duas direcções. Isso dissolve os movimentos desnecessários à partida e propicia os movimentos necessários à chegada.
É Grande a Verdade na expressão: "Estar no Mundo sem Ser do Mundo."
Neste ponto vale relembrar que impulso iniciou o fluxo IMpossible desde 2015, antecedido pela multi-sincronia que propiciou e confirmou a necessidade de criação deste Website e Blog, impulso que está anunciado na primeira mensagem e concentrado na segunda mensagem dessa sequência. Um impulso que só pode ser expresso na 1ª pessoa, mas não põe ninguém no pedestal, põe cada um no seu Posto: Self-Disclosure.
Nesse Posto, que INFLUÊNCIA Somos no Mundo?
No dia 05.05.2023 enviei aos filhos o seguinte:
Filhos
Trazendo INfluência para o único lugar onde ela pode SERVIR a Vida - a Consciência - a equação é simples, mas a sua leitura depende de onde, em que fase, cada um se situa em Consciência:
influenciar E ser influenciado
influenciar OU Ser INfluenciado
Ser INfluenciado E INfluenciar
Este Mundo precisa de Nós nessa 3ª INstância, onde o que recebemos e o que emitimos vem do mesmo lugar - a Consciência INterna. Como reconhecê-la? Também é simples:
Onde a Consciência INterna está e surge no nosso consciente externo, ela FAZ PARAR O TRÂNSITO, porque ela verticaliza toda a horizontal e põe-nos perante o UNIVERSAL, aquilo que é inerentemente UNO, não tem oposto, não dualiza, só se amplia e expande como um todo, do e para o TODO.
Se mantiverem esta DIRECÇÃO presente nos vossos trânsitos, mesmo que errem ou duvidem no caminho, não se perdem, porque a vossa ROTA será sempre corrigida de volta ao DESÍGNIO ORIGINAL, a partir do qual e em torno do qual se constroem e criam nesta vida.
Beijo-Bênção-Mãe
Atenta aos trânsitos deles e captando as influências a que foram e continuam a ser sujeitos por herança, por via académica, por via socio-cultural, acentuadamente sob a forma de mentalidade de grupo, incluindo nas dinâmicas viciadas e viciantes que o autor bem descreve, que evidenciam bem de onde vêm os antagonismos entre uns e outros e comigo, evoco como testemunho contrastante a constatação em toda a minha vida de os meus círculos serem sempre heterogéneos, sem tendência a formar ou a sentir pertença a grupos, não obstante sentir e nutrir laços interpessoais que nunca esqueço mesmo quando descontinuados por mim ou pelos outros ou pela vida.
Entre essas influências no Brasil, nação que também viveu um regime de ditadura, regista-se em certos artistas o fenómeno descrito pelo autor como "crença na genialidade pessoal", que não invalida o seu mérito pessoal e artístico, mas no contexto brasileiro de 2020+ foi com tristeza que constatei artistas por quem nutria um carinho como referências culturais musicais assumirem irresponsáveis e tendenciosas posições sanitárias politicamente polarizadas como 'mentoria influente' aos jovens e à população em geral, revelando também eles a sombra por detrás da "genialidade". O mesmo se constatou noutros países como parte do mesmo psico-fenómeno e processo de exposição da sombra ocultada atrás das máscaras, evidenciando à escala global o mecanismo da relação dominador/dominado.
Ao longo da leitura deste livro detectei em mais de um ponto que nele está implícita a premissa conhecida como "teoria dos germes", assente na ideia de agentes patogénicos externos transmitidos por contágio. Neste capítulo é feita uma analogia directa entre essa premissa e a dinâmica patológica da inveja, excerto que fiz questão de incluir pela evidência e oportunidade que traz de demonstrar o quanto essa teoria e ideia é uma psico-projecção humana sobre a Natureza, uma projecção que está na base de todos os equívocos pseudo-científicos amplificados em 2020+, uma projecção da qual a humanidade ou ainda não tomou consciência ou ainda se recusa a reconhecer: o fenómeno contágio é absolutamente real no seu próprio plano - plano mental - este ainda muito pouco estudado ou levado a sério pela dita comunidade científica.
E como a lei da Sincronia serve a VIDA, no período de composição deste segmento surgiu uma referência que me conduziu a um vídeo de onde extraí a seguinte citação, a repercutir no sentido estrito e no sentido lato:
"You may know the v i r u s does
not exist, and it can still come
for you, because the v i r u s is a
thought-form; a dark spirit
that has infiltrated humanity.
It may not exist as a 'scientific
thing' but it has all the life
and existence we give it."
- Eric Francis Coppolino, Investigative Reporter
Até quando durará e até onde irá a prisão mental?
(segmento abaixo publicado em 10 Outubro 2023)
(9) O vazio e o pleno
: "Se nós somos <<os chineses do ocidente>>, nem um pouco nos assemelhamos aos japoneses. É porque não conhecemos o vazio nem por ele nos sentimos atraídos.
Há talvez uma barreira que contribui para isso, a fascinação-repulsa pela ausência. A ausência não é o vazio, contraria-o mesmo, em certo sentido. A ausência diz-se de uma presença, enquanto um vazio não se reporta a um cheio. O vazio é primeiro, está aquém da ausência de tudo. Quando toda a presença desaparece e deixa de haver lugar a preencher por uma coisa, então surge o vazio primordial, de onde sairão as forças para, precisamente, criar, agir, pensar. Do vazio nascem os pensamentos únicos, nunca anteriormente pensados, como dele nasce a obra (eventualmente, de arte) absolutamente original. Para que ocorram, é preciso saber produzir o vazio.
Os portugueses são particularmente sensíveis à ausência, o que os faz constantemente ansiar pelo pleno.
Não existe, no entanto, contradição entre a ideia de um povo que age pouco, ou insuficientemente, e a de um povo agitado porque constantemente impulsionado pelo horror ao vazio. Por um lado, como vimos, o vazio não significa lacuna; por outro, quando surge a ausência da presença e a impossibilidade de a preencher, recorre-se, para a compensar, à própria ausência de si a si.
A ausência de si a si supõe uma certa modalidade da consciência com que se habita o mundo. Já nos referimos, acima, ao que chamámos <<nevoeiro>> ou <<sombra branca>>: uma consciência das coisas nítida, clara, mas de âmbito restrito e inconsciente. Como se o campo da consciência tivesse sido em larga medida esburacado (por buracos negros) e absorvido pelo inconsciente, mas permanecesse com o sentimento de completude e autonomia. Consequentemente, o nevoeiro não constitui apenas um estado de consciência, mas sobretudo um dispositivo de defesa contra a ausência e, mais longinquamente, contra o vazio.
Quando o português é vítima de uma injustiça (...) e que não pode protestar ou <<desabafar>> (...); quando enfrenta uma situação de impasse afectivo (...); quando é reduzido ao silêncio pela imensa culpabilidade que lhe caiu em cima (...) (e a nossa sociedade é um terreno que fervilha de culpabilidade), a reacção imediata é entrar no nevoeiro. Não equivale exactamente a enfiar a cabeça na areia como a avestruz, quer dizer, a negar, com o gesto brusco, a realidade inteira, mas aproxima-se disso.
Com efeito, o mecanismo é outro. Nega-se e não se nega a visão real das coisas. O nevoeiro deixa a percepção aparentemente intacta (o que constitui todo o seu lado paradoxal), e ao mesmo tempo transforma-a profundamente. As formas que continuam a ser vistas (outras desaparecem do campo do interesse vital da percepção) perdem forças, ganhando uma neutralidade e distância que permitem ao indivíduo suportar uma solidão não solitária. Entra então num turpor da consciência, num estado de entorpecimento de que se não dá conta - e que, mais uma vez, acompanha a visão nítida do mundo.
O que mudou foi a sua forma de vida. Melhor: as variações no estado de entorpecimento da consciência operam-se sobre um fundo geral de estuporização colectiva permanente ou quase. É preciso dizer que o povo português vive nesse estado há longo tempo, sem dúvida muito antes do salazarismo. O português pode mergulhar mais ou menos no nevoeiro, mas este é o seu meio ambiente.
O entorpecimento da consciência tem consequências imediatas no pensamento que, por seu turno, entorpece sem remorsos. Por isso se diz que se pensa pouco em Portugal. Há como que uma ligeira estupidez reinante, um vapor de burgessismo que se nos cola à pele.
O burgessismo é uma variante típica lusitana da grosseria. Digamos que, tal como todos estes traços que vamos desfiando, a grosseria não encerra a essência da lusitanidade, nem pretende ser genética, mas varia em intensidade e pregnância segundo as épocas.
O que é a grosseria? Resulta do esforço e da impossibilidade de dar forma a um fundo visceral sem forma.
O pior, na grosseria, não é a ruína da forma, mas a arrogância em julgar-se forma: violência característica do burgesso;
O entorpecimento é um modo particular de escapar à ausência de si a si, e de si ao mundo. Representa a defesa última contra essa ausência, já que o entorpecido entra numa espécie de plenitude letárgica onde não há lugar para o vazio.
O fenómeno é geral, mais profundo do que parece. (...) Somos um povo sempre em busca de pequenos prazeres (...). Precisamos de preencher a nossa existência do máximo de gozo (melhor, de gozos), para que ela ganhe sentido tangível. Não se vendo que, dessa maneira, é o próprio processo de construir sentido que se vai minando.
Entorpecimento, gozo, violência do grosseiro. E, por cima, à superfície, a proliferação progressiva de formas de cultura (nomeadamente popular), com que se procura preencher a ausência (e proteger-se contra o vazio). Nos interiores das casas, as pequenas coisas cobrem paredes, mesas, janelas, o mais pequeno espaço numa prateleira de um vão de escada, e os pensamentos saltitam estabelecendo relações extrínsecas ou insignificantes, ocupando constantemente a consciência, quando não a atafulha o entorpecimento. No interior como no exterior reina o pânico do vazio.
O medo do vazio impede o nosso lado bárbaro de se ligar ao cosmos (com excepções geniais: Fernando Pessoa, Herberto Hélder). Donde, a existência de um terreno propício para o desenvolvimento universal de um discurso irrecusável que dá a norma ideal dos valores da cultura portuguesa: o discurso que coloca o homem no centro do mundo, o discurso do humanismo. Cristão (apesar das suas raízes históricas laicas), marxista, socialista, ateu, o humanismo é proteiforme na sua unidade consensual, marca as fronteiras dentro das quais as ideias são boas, verdadeiras, e os homens dignos de pertencer à comunidade humana, e fora das quais começa a barbárie, a injustiça, a opressão.
É desnecessário descrever a universalidade do discurso humanista em Portugal. Não é só politicamente correcto, está mesmo para além da política e mesmo da ética; não é só o que articula uma à outra, mas o que legitima essa articulação. Constitui, pois, uma espécie de discurso-fundamento que diz como pensar o homem no mundo, porque pressupõe um saber (o mais profundo saber) sobre o ser e a essência do homem. Se um qualquer discurso político pretende ser aceite por todos - com uns laivos de progressismo - arranjará uma maneira de afirmar o humanismo como uma doutrina fundamental. Se os dilemas da bioética se revelarem demasiado difíceis de resolver, recorre-se ao humanismo. Se o urbanismo das cidades-dormitório ou a arquitectura dos centros comerciais desumaniza, lá está o humanismo para que os especialistas e os tecnocratas não esqueçam o homem.
Mas que homem? Que tipo de homem?
Interrogações que abrem dúvidas no unanimismo à volta do humanismo. Uma atenção mais aguda descobre um curioso fenómeno: quando a função do discurso humanista se exerce para resolver problemas e fechar discussões em que se estava a esquecer o homem, ninguém pergunta mais nada, mais nenhuma questão se levanta, como se o apelo ao homem acabasse com todas as dificuldades. Quer dizer, como se o conhecimento que se tem do homem reduzisse a zero a ignorância que fez nascer o problema. Ora, é do homem que nós não conhecemos quase nada. É, no fundo da nossa ignorância, quanto ao ser humano, que geralmente nasce o problema.
Em resumo, o apelo à tomada de consciência do valor central do homem, em vez de fechar os problemas em falsas soluções, deve abrir mil outros debates: que homem queremos, quando (com as novas tecnologias, com a engenharia genética) se deparam múltiplos futuros alternativos? E estes são ainda puras simulações grosseiras . . .
Em Portugal, o discurso humanista ajuda a não pensar. Panaceia universal para todos os males, vive do círculo que acabámos de descrever. O apelo à acção para o bem do homem e da humanidade supõe aquilo mesmo que queremos saber: o que é o homem? Que homem podemos forjar no futuro? O que é <<bom>> para o homem e para a mulher? Como o conhecimento da natureza humana, e do que para ela é bom e mau, nos escapa, mas está pressuposto nas ideias humanistas, o discurso que as exprime é vazio. E o apelo ao <<Homem>>, excepto em casos-limite evidentes (fome, devastações, massacres, etc. - e nestes casos não é sequer necessário recorrer ao <<Homem>>), revela-se ineficaz e retórico. Quando já não lhes convém, quando deixa de lhes servir de álibi, forças poderosas varrem de uma penada o discurso humanista.
:: A re-leitura deste capítulo no presente trouxe uma importante associação que não estava presente antes, pois não é um factor emergente em mim e só surgiu em Setembro num vídeo cuja capa captei e cuja relevância intuí. Aqui, o paralelo é com o "nevoeiro" em que se mergulha quando um mecanismo de defesa ou compensação por trauma é activado:
"TUNING OUT" <> "NEVOEIRO"
Este trauma está presente na história de inúmeras famílias e nações, incluindo na família e na nação em que nasci, de forma directa ou indirecta. Comprova-se o quanto um trauma é implicitamente ou mesmo explicitamente passado de geração em geração, assim como o facto de essa sucessão não ter qualquer atribuição genética como é comum pensar-se porque assim foi estabelecido por certas correntes ditas científicas. Mesmo no âmbito do que se entende por doenças manifestas, há muito que senti visceral e animicamente que não decorrem de herança ou predisposição genética no plano físico, mas podem ser e são activadas nos planos que antecedem a manifestação física - anímico, mental e emocional - especialmente quando alguém numa geração transmite verbalmente essa crença a um seu descendente, supostamente para o prevenir:
Não pude esquecer o caso da actriz norte-americana que se submeteu a uma dupla mastectomia e dupla anexectomia como "cirurgias preventivas", porque havia histórico familiar de cancro mamário e ovário, os quais ela tomou como factos pré-consumados e quis assegurar que iria viver para não faltar aos filhos. Pelo dito 'senso comum' que se estabeleceu, este foi visto como um acto nobre, ao pôr a família em primeiro lugar, até numa distorcida leitura de suposta ruptura com estereótipos femininos. Alguns anos depois, não me surpreendeu que a mesma actriz declarasse publicamente apoio a um dos seus filhos para cirurgia de mudança de sexo. E se resta alguma dúvida de onde vêm estas orientações, veja-se o que ela imprimiu no seu corpo numa época anterior (entre as muitas outras impressas ao longo dos anos). Independentemente das intenções nobres e das interpretações dadas pelo próprio e pelos outros, tais actos provêm da dissociação entre a Consciência interna e o consciente externo tridimensional. Dissociação abre a porta para a adicção, por isso, uma vez iniciado um mecanismo de compensação, é difícil de parar. Porque a adicção gera uma necessidade forçada de preencher externamente um vazio interior insuportável, uma vez que não se reconhece e não se reconecta ao Vazio primordial. Na ausência desta conexão consciente gera-se um perpétuo anseio em torno de ausência, de prevenir a ausência, de suprir a ausência. Do mesmo mecanismo provém o medo do desconhecido, gerando a necessidade forçada de o preencher com alguma coisa, mesmo que negando a Verdade inerente à Realidade não fabricada pela mente tridimensional - como também se verificou e continua a verificar-se na conjuntura 2020+.
Então, o espaço vazio na superfície, que passou a ser literalmente a pele, tem de ser forçosamente preenchido, permanentemente re-vestido com alguma coisa. Assim se banalizou a tatuagem como um neo-acessório de moda aliado a uma tendência neo-tribal, levando indivíduos em larga escala a aceitarem ISTO como 'normal' e como 'arte' - percorrendo os comentários desse vídeo, é revelador que, ao verem ISSO, uma maioria auto-preservadora confirme que nunca o fez nem fará mas uma minoria auto-invasora confirme que agora o fará ainda mais. Como se a pele fosse um mural de rede social onde se publicam as crenças e as ideias do momento em forma de 'estado'('status'), em vez do órgão físico protector que é, para toda uma vida. Enquanto influência vinda da matriz de controlo, passa uma noção de 'iniciação' que vincula a essa matriz, tenha o desenho aparência virtuosa ou sombria, preparando os seres humanos para se tornarem um código-de-barras ou um microchip, invariavelmente prisioneiros, ainda que com aparências outras. Parafraseando uma repercutiva afirmação do autor que realcei no capítulo anterior, afirmo: A tatuagem não inscreve, marca. Por isso, posso prever que uma tendência futura será apagar tatuagens, esperemos que não para as substituir por outras, mas por superação da deturpação da imagem de si.
Entretanto, para que mais ninguém se deixe iludir nem deturpar
quanto ao que é e não é Arte, afirmo também:
There is no such thing as a 'tattoo artist'.
The design may be called art, if one is truly gifted and internally inspired.
Once injected into the skin, it becomes something else. Something that is NOT.
Em vários pontos da leitura deste livro não pude deixar de observar que por detrás do arcaísmo e atavismo de inúmeros traços dos portugueses se pode identificar a génese autêntica deste povo. Nesta, afirmar-se que em Portugal pensa-se menos e sente-se mais assume um sentido legítimo, até pelo próprio lugar que Portugal ocupa no corpo terrestre, que não é Cabeça mas centro cardíaco planetário. Portugal pensa com o Coração. Novamente, o anseio em torno do vazio traduz a falta de conexão consciente com esse centro. A profundidade que Portugal ainda não trouxe à superfície é aquela que continuou cativa das correntes ideológicas em que se viu arrastado mal saiu do regime opressor (conforme abordado no 4º capítulo). No passado rural como no presente urbano, as casas com todas as paredes obrigatoriamente preenchidas (que me dão claustrofobia visual), as 'lojas de 300$' (dime stores) como as lojas de chineses dando predominância ao quantitativo sobre o qualitativo (viste uma, viste todas), e o Portugal de hoje também se deixou tatuar nessa superfície, que não é a Sua, ainda é só a "sombra branca". Com os sentidos assim ocupados e entorpecidos nessa "plenitude letárgica", que reduz e deturpa a percepção do Real sob uma ilusória apreensão completa do mesmo, o processo de construção do Sentido e as escalas que este traz ficam adiados . . .
No ponto em que traços individuais aparentemente limitadores traduzem constituintes internos, a minha preferência pela escrita não é por falta de capacidade oral, é pela necessidade de tempo de processamento do não-verbal para o verbal. Nesta sociedade e seu sistema de ensino, a predominância do verbal sobre o não-verbal era um factor de dificuldade e insucesso escolar na maior parte das disciplinas; em contrapartida, ao longo do meu crescimento tenho memória do meu pai assinalar em mim a capacidade de captação antecipada, ao vermos filmes e séries na tv junto com o meu irmão; não que o meu irmão fosse/seja menos capacitado, de modo algum, mas o processamento dele é lógico-linear e alinhado ao tal 'senso comum' estabelecido; a mesma capacidade foi observada e assinalada pela minha psicoterapeuta como perspicácia; em mim ficou registada pela palavra inglesa grasp, que traduz bem o quanto a captação é rápida e instantânea, mas a tradução precisa de tempo, pois não é apenas processamento linguístico, é interno, uma vez que o que se processa em Mim processa-se no Todo, dentro e fora do tempo. Outra pertinência da preferencial escrita é a reduzida capacidade de atenção (attention span) por parte da maioria dos receptores ao discurso oral compassado, a qual constato na aversão de todos aos meus áudios que não sejam do tipo telegráfico. O fenómeno é global e observa-se na tendência para os "shorts" e para evitar conteúdos mais longos. O "saltitar" entre muitos conteúdos curtos em vez de aprofundar-se em menos conteúdos porventura mais longos, não é um traço exclusivo nem originário de Portugal, é um padrão psíquico com raízes profundas, que o autor desfia na sua obra no contexto português. Porém, vejo nele também o paradoxo evolutivo rumo a uma síntese que não oblitera mas revela o essencial em captações directas que já não requeiram tanta tradução em linguagem verbal. Mas para isto é preciso que os receptores entrem na sintonia interna vertical, que é a verdadeira Ressonância no Código Fonte, distinta da "like-minded" horizontal que remete tudo para o plano opinativo com fácil tendência ao relativismo nihilista que passou a caracterizar o 'senso comum'.
Ainda neste ponto, aproveito para esclarecer um indicador que pode ter causado ou ainda estar a causar alguma confusão. Quando disse no passado (2015) que testei positivo para Asperger, não houve nem há nisso o menor sentido ou busca de diagnóstico de doença ou desordem. O que há é o reconhecimento em mim de certos traços identificados a esse síndroma que sinalizam outro tipo de leitura e processamento da realidade que faz parte do Futuro Ser Humano e que aqueles de nós que vêm abrir caminho já trazem em alguma medida, alguns manifestos como inatos, outros em estado latente e progressiva manifestação. Na minha experiência, não há qualquer treino ou exercício tridimensional (incluindo meditação) que precipite esta manifestação. Tudo decorre dos estágios de integração da consciência na vida quotidiana pela sintonização contínua com o Ser Total que Somos. Oscilações do tipo 'sou só humano' causam descontínuo e mantêm o Ser nesse ponto onde ele estacionou a consciência. É só por isso que há tanta dissonância cognitiva em mal-entendidos redutores e sabotadores.
Há muitos meses acompanho vários video-canais online de projectos de restauro e remodelação de veleiros. Pessoas que estão a largar as suas casas e os seus empregos habituais para habitar nos barcos e velejar pelo mundo. Sentindo eu uma afinidade com veleiros, pelo menos desde a adolescência, à semelhança de outras afinidades misteriosas, esta não passa pela experiência de velejar nesta vida, ou necessariamente 'noutra vida', diria antes que são afinidades com a essência de tudo, a sua expressão mais pura, cuja comunhão e função emergem em Mim quando e onde necessárias.
Nesta, eis a imagem que me vem constantemente:
Se a Humanidade se imaginar como um imenso Veleiro, em que cada um só pode ser aquilo que É na embarcação corporificada, a Popa não vai invejar a Proa, Bombordo não vai discutir com Estibordo, a Quilha não vai encolher o Mastro, a Vela Mestra não vai abafar as Velas Menores, o Casco não vai desINtegrar-se e pôr a perder todas as Partes e o Leme não vai ficar à deriva. Todas as partes vão querer ver as outras no seu melhor desempenho, para que se possa tirar o máximo partido do Vento que conduz ao Destino. A velocidade também depende disso. Nós não somos um navio de carga a transportar bens de consumo, Somos esse Veleiro! Descobre qual é a tua parte nele e assume-a! Descobrirás então que não podes deixar de ser todas as partes. O que em Nós é a frente e a traseira, a esquerda e a direita, o acima e o abaixo, o dom dominante e os dons coadjuvantes, o veículo corpóreo e sua condução, assim é na Humanidade. As partes que em Nós e na Humanidade são negadas, combatidas, subvalorizadas ou sobrevalorizadas são aquelas que cada Um e Todos resistem ou recusam INtegrar como um Todo. Na desconstrução e reconstrução do Veleiro, a triagem repõe a exacta medida entre constantes e variáveis que servem a nova direcção de Vida. Cada um que está a fazê-lo, na sua escala, uns com mais outros com menos recursos, é um passo em frente, e por isso merece a minha Atenção. Quando todos o fizermos seremos uma Força desbravadora invencível, em vez de nos gastarmos em divisões retentivas que mantêm as velas recolhidas com medo do Vento.
O nosso Destino não é um discurso humanista, é Ser Humano INtegral.
TUNING IN-to-OUT

Interlúdio Náutico Um dos projectos náuticos em curso visa transformar um veleiro de competição num veleiro de cruzeiro, processo que implica inúmeras alterações de design estrutural, funcional e estético para habitação e navegação de um casal, sem comprometer o desempenho do veleiro. Tendo presente a analogia que apresentei no parágrafo final acima (o qual voltei agora a rever e completar), este processo de transformação é indicador do processo pelo qual a humanidade já está parcialmente a passar e terá de passar integralmente, da competição para a navegação-liderança partilhada. Neste projecto, não comprometer a navegação é um imperativo que passa prioritariamente pela regulação vertical, fazendo corresponder novas variáveis de peso vs. leveza acima e abaixo, de modo que uma Quilha mais curta (possibilitando transitar em ancoradouros de águas menos profundas) porventura com um Lastro mais leve, não encolhe o Mastro, mas permite que este seja também mais leve. Eis o episódio cuja demonstração visual senti salientar-se pelo seu multi-INsight: Complementos citados: - Ep. 3, breve histórico do veleiro - documentário sobre o criador-construtor-velejador original do veleiro Desse documentário ficou-me a impressão de que o erro fatal dele foi ter deixado de lado este veleiro consagrado para criar e competir num veleiro supostamente superior, que, construído em condições instáveis e não posto à prova, capotou e pôs fim à sua vida. Se tivesse valorizado e continuado com o veleiro original que lhe trouxe o record de circum-navegação, talvez tivesse chegado a bom porto com vida. Uma impressão que parece convergir com o espírito de conservação por este veleiro, acima das modificações . . . mast = mastro | keel = quilha | balast = (ba)lastro | hull = casco | starboard = estibordo | port = bombordo | spinnaker = vela balão frontal |
(Interlúdio acima e segmento abaixo publicados em 31 Outubro 2023)
(10) Trauma, terror e medo
: "Vivemos numa sociedade normalizada, consensual, que esconde, sob uma fachada (cada vez menos) brilhante, uma insegurança profunda.
A <<normalização>> (...) caracteriza-se negativamente, como vimos, pela homogeneização dos comportamentos, pela supressão de possibilidades de vida (criação de novos possíveis de subjectivação), e positivamente, pela aceitação universal desse estado de coisas. Um traço essencial da normalização é a ausência de alternativas, a afirmação de uma única norma em todos os domínios (desde a governação à vida privada). Ausência de alternativas que por sua vez é acompanhada pelo desaparecimento da norma. A sociedade portuguesa está normalizada por uma regra invisível. Onde está ela? Ela, que prescreve uma só política, uma só moral? Uma só maneira de agir, de sentir, reagir, pensar? Mas como definir a norma, se o pensamento e a acção, a política e a moralidade vigentes se vivem com a naturalidade e a crença das evidências indiscutíveis? Que outra política económica seria possível para o nosso país? Como não aderir à moeda única? Como recusar a constituição europeia? Aliás, as evidências estendem-se aos problemas de toda a humanidade - quem não condena a clonagem de seres humanos (a não ser um ou dois cientistas excêntricos)? Quem não adere aos princípios da tolerância e da solidariedade entre os povos? Quem não é pela liberdade? Ou pela justiça social?
A democracia tornou-se uma questão de bom senso. É a via única. Impõe-se universalmente e impõe-se em Portugal, misturando-se com o mais fino tecido das mentalidades que querem o consenso e fogem dos conflitos, valorizando acima de tudo a paz da mediania, o equilíbrio do justo meio - numa palavra, o bom senso.
Por isso, em Portugal, talvez mais do que noutros países, também normalizados, se dê menos pela falta de norma. Vivemos num espaço (mental, social, de vida) circunscrito por limites, mas onde não se distingue o que nos limita. Mais uma vez, é naturalmente, espontaneamente, que pensamos de uma só maneira, caminhamos por uma só via, como se fosse evidente que só estas existem. Porque as outras <<possíveis>> pertencem ao passado e verificaram-se impossíveis; e as que se apresentam como diferentes e reais levam directamente à exclusão social. As alternativas actuais não são impossíveis, muito simplesmente não existem.
Se parece descabido, ou mesmo monstruoso, comparar, no plano político, o regime totalitário com o regime democrático em que vivemos, já não o é tanto quando se traça um paralelo entre os princípios <<ideológicos>> (...) do totalitarismo e os efeitos socioeconómicos do capitalismo vigente e da globalização.
Há certamente um <<totalitarismo>> próprio das <<sociedades de controlo>> (...) actuais. A aplicação das novas tecnologias a todo o tipo de serviços, por exemplo, implica o imperativo de cumprir os regulamentos, sob pena de exclusão. (...) Um exemplo emblemático já utilizado em Portugal, nos serviços prisionais, a pulseira magnética de localização a distância que o prisioneiro levará consigo sempre que se ausente da prisão. (Em breve seremos todos prisioneiros em liberdade, controlados a distância). O cidadão só pode submeter-se e aderir, em nome da lógica funcional do sistema de regulamentação da vida social, pública e privada. Caso contrário, surge, automaticamente também, a ameaça da exclusão.
A exclusão, neste tipo de regime que tende a controlar o conjunto dos comportamentos do indivíduo, não significa apenas tal ou tal efeito determinado (...), mas atinge todos os aspectos da vida individual. (...) Exige-se uma integração tão completa do indivíduo, que o mínimo desvio é sinal de catástrofe, quer dizer, de perigo de exclusão total.
Ou seja, a exclusão não é apenas <<social>>, ou do <<mercado de trabalho>>, ou <<racial>>, ou <<cultural>>, ou <<psicológica>>, mas atinge o cerne da humanidade do homem.
Assim, é de maneira natural e democrática que se cria um padrão único de humanidade.
O estado de transição actual da sociedade portuguesa, com a passagem rápida de um regime autoritário para um regime em que a disciplina emana do sistema orgânico da funcionalidade tecnológica, cria uma situação em que o novo <<princípio de acção>> surge como um prolongamento natural do medo. É também invisível e ubíquo, inelutável e único. E é, como veremos, uma certa forma transformada de terror.
O suporte político do medo foi a ditadura: o suporte do <<princípio de acção>> actual, em democracia, não sendo (ainda e sobretudo) o desejo e a liberdade, subentende-os. É porque eles existem e se inscrevem na própria prática e princípios democráticos que a sua supressão automática e efectiva (em benefício do seu contrário, a norma única), se torna mais enigmática e, de certo modo, inconscientemente aterradora.
[o <<trauma psíquico>>] suprime a percepção das suas causas, não se inscrevendo mesmo no inconsciente; e deixa o indivíduo totalmente indefeso, à mercê de qualquer pressão ou influência.
Sideração, supressão da motilidade e da percepção, o terror não deixa espaço para a mínima liberdade, provocando um efeito de não-inscrição, de vazio psíquico que se presta a um preenchimento de qualquer tipo.
De uma maneira geral o terror nasce de uma operação a que chamarei <<duplo-esmagamento>> (...) Obediência sem motivo, sem justificação, obediência pela obediência - eis o que engendra o duplo-esmagamento. Obediência ao poder incompreensível e à sua aplicação arbitrária.
O terror <<branco>> segregado pela sociedade de controlo elimina o espaço entre as pessoas (...). Não há mais separações entre público e privado, mas também não há mais espaço de encontro ocasional ou de intervenção colectiva criadora. De facto, tudo se encontra hipercontrolado, com vias de circulação pré-determinadas e condicionadas pela racionalidade tecno-social.
O <<branco psíquico>> (que noutros contextos se chamava <<lavagem cerebral>>) é preenchido (mas não eliminado) pela presença de mil imagens redutoras da liberdade, da Natureza (em vias de extinção), de um novo corpo feminino e masculino. De um outro modo, a norma única pressupõe cada vez mais um só padrão do <<género humano>>.
Um dos efeitos mais subtis, poderosos e esquizofrenizantes do novo tipo de controlo que vai tomando posse da nossa vida quotidiana é a organização do espaço. Como já foi observado (...), é um espaço sem Fora (...).
O carácter paradoxal (e brutal) deste tipo de espaço que se generaliza por todo o planeta manifesta-se na desfasagem entre o movimento dos corpos e o seu fechamento, que o acompanha. São corpos evoluindo num espaço <<liso>>, sem obstáculos, aparentemente sem regras, onde o aleatório e o imprevisto parecem possíveis. Na realidade, a esse movimento exterior <<livre>> não corresponde nenhuma abertura, nenhuma expansão interior dos corpos (afectivos).
No novo espaço liso das sociedades de controlo, os movimentos corporais desenvolvem-se sem entraves exteriores, mas fortemente inibidos na sua espontaneidade e no seu desejo. É um movimento motivado apenas pela norma única e pelos padrões que todos seguem (...). É o corpo afectivo que se esvaziou.
Trata-se, pois, de uma situação nova (...). O espaço de circulação está disponível (e a <<liberdade>> também), mas perdeu a qualidade, a singularidade e a abertura. Já não é um espaço de possíveis, mas de circulação de zombies. A abertura exterior não só não corresponde a uma abertura interior, mas impede-a. O espaço interior dos corpos já não tenta sequer atingir os outros, introduzindo-se no fora. Interiormente petrificado, deixa-se levar dentro de um corpo <<livre>>, fluente e vazio.
Porquê <<petrificado>>? Porque, com a desfasagem e paragem de trocas e osmoses entre interior e exterior, produziu-se um efeito semelhante ao do trauma psíquico (...): movemo-nos e nada se inscreve. O <<branco psíquico>>, próprio do terror, tornou-se um horizonte permanente do nosso quotidiano.
Porque nada se inscreve, o terror é latente, a disponibilidade para o terror alarga-se e ocupa uma superfície cada vez mais vasta no nosso inconsciente. (...) os espaços do nosso quotidiano enchem-se de terrores nascentes. Síndromas do pânico, como lhes chama a psiquiatria do stress contemporâneo.
A nossa pele crivou-se de minúsculos terrores eventuais. Não há um possível quotidiano das sociedades actuais de controlo que não suponha uma forma de microterror.
Enquanto sociedade de transição, entre um regime de medo e um regime que produz um certo tipo de terror (da exclusão), Portugal, antes mesmo de ter conquistado e construído a liberdade da democracia, está já a perdê-la, entrando na sociedade globalizada de controlo. Antes mesmo de possuir um espaço público começou já a edificar o espaço <<liso>> (democrático) e fechado do urbanismo dos grandes centros comerciais e dos debates no ciberespaço. Assim, Portugal reúne condições privilegiadas para o exercício do duplo-esmagamento: 1. O medo difuso anterior está a transferir-se para os comportamentos de ansiedade diante da possibilidade da exclusão - ansiedade difusa também, que redobra o medo interiorizado vindo da ditadura; 2. O medo difuso, que ficou sem objecto depois do 25 de Abril (por inércia, e porque várias vezes reactivado), ao combinar-se com a nova angústia da sociedade de exclusão em que estamos a entrar fixou-se precisamente nesse novo sentimento. É agora medo da angústia, medo do terror pressentido, da eventualidade de já não se sabe o quê (que esconde o que desapareceu: o não existir, no não-espaço da exclusão).
O duplo-esmagamento de que hoje sofre o português decorre naturalmente deste processo: Portugal saiu do salazarismo com medo, quer dizer, saiu com medo de sair.
O medo de sair (da sociedade autoritária do medo) fez com que nunca realmente se saísse do medo. Como se voltou à velha tendência nacional de não conflitualidade social e política, ela infiltrou-se naturalmente na ausência de conflito inerente à sociedade globalizada de controlo. O salazarismo havia obtido a supressão dos conflitos com a repressão, mas a passagem actual para a mundialização reactiva a tendência, democraticamente, graças à existência da norma única (que é ausência de norma e de autoridade visíveis).
O duplo-esmagamento está em curso, apaga-se o medo com o medo (...).
A auto-estima esconde hoje, nos portugueses, um duplo medo, o de não conseguir entrar nesse centro da normalização e o de ser dele expulso. Assim, é o próprio centro que constitui os seus limites - por isso, estes são invisíveis.
A auto-estima festiva esconde o verdadeiro <<princípio de acção>>: o medo de, ele próprio, se tornar terror, medo do medo vir à tona, de ser visto por todos e se transformar em sideração. Porque uma coisa é certa, dentro do espaço normalizado do autocontentamento que às vezes se aparenta não se estão a formar novas relações, novas unidades sociais ou uma nova <<comunidade>> (...).
O <<branco psíquico>> é inconsciente, a sociedade portuguesa não é um espaço visível de terror. De certo modo, o terror não se vive sequer, pois os medos traumáticos foram varridos por um outro trauma."
:: Em 2020, quando procurava alternativas de compra de alimentos após o decreto que impôs máscaras nos estabelecimentos de venda, fiz uma tentativa de ir ao mercado Bio, sabendo que este era num local ao ar-livre. Chegada lá, foi com indignado desânimo que vi as mesmas filas de pessoas mascaradas à espera de serem atendidas por atendentes mascarados que serviam uma pessoa de cada vez pegando eles nos alimentos, sem darem opção de cada um se servir e no final levar a pesar e pagar, como era usual. Escusado será dizer que me vim embora sem nada comprar, mas não sem antes parar junto a um dos agro-produtores biológicos (organic farmer), que estava à parte a entregar cabazes semanais encomendados online, para lhe entregar a mensagem ali ensurdecida e emudecida por todos.
Também em 2020, noutro movimento a pé pelo paredão para ir levantar o cartão de cidadão (cuja renovação me propuseram, por SMS, que fosse automática, e aceitei), foi com contracção que testemunhei a neurose colectiva, pessoas a circularem como autómatos - autêntica "circulação de zombies" no espaço não-público - a seguirem as orientações de sentidos e distâncias 'pan' pintadas no chão ao longo de todo o paredão (quase 3 km), ao ponto de mais de uma pessoa zombificada me ter interpelado em andamento apontando incumprimento, ao que respondi, sem parar, "guarde as instruções para si". Depois disso não voltei mais ao paredão durante os quase dois anos que se seguiram. E quando recordo esse episódio, hoje provavelmente não teria renovado o cartão de cidadão. Não se trata de uma mera questão pragmática, trata-se de um profundo questionamento quanto à significância de um documento de identificação que nos vincule a um sistema que não nos corresponda.
Avançando para 2023, desta vez foi altura de renovar a carta de condução, que exige um atestado médico a comprovar aptidão para a condução. Estando o centro de saúde (C.S.) sob restrição máscaras e não encontrando alternativa adequada a mim, não a renovei, o que não me afectou, visto que não tenho veículo próprio nem tenho conduzido outro. Retiradas as restrições três meses depois, fui então ao C.S. e, enquanto aguardava a consulta para atestado médico, testemunhei uma atendente a dizer ao telefone a uma utente que "agora a [doença] 'C' é uma gripe", já não serve de justificação de falta para apresentar à entidade empregadora. Isto, claro, porque as pessoas em Portugal e em todo o mundo continuam a fazer testes toda a vez que estão doentes e continuam a fazer questão de afirmar publicamente que 'apanharam 'C'', como se fosse uma espécie de troféu inescapável, mais cedo ou mais tarde. Isto, claro, advém de uma necessidade inconsciente de continuar a validar toda a conjuntura 'C' e permanecer em estado de alerta 'pan' - "terror latente", "microterror" dos germes à escala macro. MAS, para efeitos oficiais, antes-era-uma-coisa, agora-é-outra-coisa, mantendo a designação 'C'. Mais um consenso forçado e imposto como 'norma'. Na consulta, deixei claro o único motivo pelo qual ali estava e expliquei que não sigo nenhum sistema médico, público ou privado. MAS, em vez de se restringirem ao exame conducente ao atestado médico para o fim destinado, insistiram em que eu respondesse a um questionário "para se saber quem é a maria". Respondi, progressivamente ainda mais contrariada à medida que as perguntas se tornavam intromissoras para mim, mas 'norma' para o sistema de saúde. E apesar de ter respondido negativamente a qualquer proposta de rastreios que fazem parte do mesmo sistema, tal declaração não foi tida em consideração e poucos meses depois recebi carta de convite para rastreio gratuito, carta que nem sequer abri e fui devolver pessoalmente ao C.S. acompanhada de uma carta minha onde reitirei a minha declaração e expus que conhecer-quem-é-a-maria deve implicar respeitar-quem-é-a-maria, em vez de a tratar indiferenciadamente e automaticamente segundo um protocolo que não lhe corresponde por declaração da própria. E, novamente, quando recordo esse episódio, hoje provavelmente não teria renovado a carta de condução. E também aqui não se trata de uma mera questão pragmática, pois, no que concerne conduzir um veículo, não há liberdade de circulação sem essa renovação, que por sua vez implica a outra renovação anterior, e que o sistema aproveita para recolher dados de cadastro, como o faz em tudo que passe pelo sistema, e cada vez mais tudo passando pelo sistema, autolegitimado pela digitalização da vida, incluindo no que se entende por 'alternativo'.
Uma única norma equivale ao desaparecimento da norma, que ninguém questiona nem espera ver questionada por alguém e que todos obedecem, por padrão, by default. E como venho dizendo, as máscaras fizerem-cair-a-única-máscara. Naquele dia, no mercado Bio, ficou por demais evidente o quanto o mundo dito alternativo também já está normalizado. Quando muito, nos seus variados contextos, o alternativo limita-se a ser excêntrico, promovendo a auto-excentricidade como uma virtude e até um 'dom'. Nesse panorama fica difícil reconheSer e exerSer os autênticos Dons, estes intrínsecos ao Ser, traduzindo-se em autenticidade distinta da excentricidade adoptada como forma de escapar à norma, estratégia que pode funcionar como factor de ruptura para com a norma, mas em última instância não liberta o Ser nem o conduz a Si, pois continua a ter como ponto de referência a norma - circuito fechado. Eis um flashback IMpossible, rumo a um outro tipo de desaparecimento, bem-vindo . . .
Todo o mercado é um espelho híper-iluminado disso: agora enfeita-se tudo com fitas e lâmpadas LED, apresentadas como a 'alternativa sustentável' mais económica, e rapidamente se tornam 'norma única', sem real alternativa, tendo em conta que tais lâmpadas não são idealizadas em função da saúde, como nada o é no rumo tecnológico (in)sustentável, nem lhe é exigido que o seja, porque entrou na "crença das evidências indiscutíveis", em que a máquina dita o comportamento e o rumo humano, num aparente "sistema orgânico" que na verdade é um sistema mecânico.
Que humano zombificado precisa de uma pulseira electrónica literal quando aceita automaticamente ser assim conduzido rumo à prisão festiva, onde até a normalização da tatuagem e da mudança de sexo se integra no cadastro identitário, em vez de, estas sim, serem vistas como parte dos microterrores injectados e operados como modificações, desnecessariamente?
O medo da exclusão está tão presente em Portugal na sua dependência da União Europeia como no Reino Unido na sua divisão perante o Brexit. Um medo de assumir responsabilidade rumo à autonomia, uma necessidade de ser contido por um contentor externo ("centro da normalização") que dita a norma, assim tornada invisível, porque a norma é o próprio contentor. A ameaça de exclusão passou a estar presente nas redes sociais, porque também estas são espaços não-públicos. Nas relações em que há medo da discórdia (evitação de conflito), tende a gerar-se uma aparência de concórdia meramente baseada em omissão, mutismo, silêncio censurador, primeiramente em torno das questões susceptíveis de divergência e posteriormente como postura de distância generalizada, sem sequer dar mais chance de proximidade e intimidade. Nega-se assim o aprofundamento daquelas questões, eternamente contornadas e por abordar como se não merecessem atenção ou sequer existissem, porque dar-lhes existência pela atenção é sentido ora como uma ameaça de exclusão relacional ou social ora como uma ameaça que põe em causa o sistema de crenças normalizado como única estrutura de vida conhecida e adoptada.
O aprofundamento negado tem consequências na psique de cada um e nas relações, a curto, médio e longo prazo, que se manifestam em depressão, em inúmeros distúrbios mentais, emocionais e finalmente físicos. Faz-se-por-estar-bem por fora sem uma correspondência por dentro. Procura-se ajuda psiquiátrica que conduz a um loop de medicação geradora de dependência que degrada cada vez mais o sistema nervoso e deixa a pessoa noutro nevoeiro induzido para não sentir o nevoeiro autêntico, tratando este como se fosse um 'desequilíbrio da química cerebral' em vez de um sinal legítimo de que algo interior precisa de ser abordado. Segue-se a abordagem da medicina estabelecida e adoptada como norma, que, por norma, implementa soluções conducentes a novos e agravados problemas. Nenhum tratamento é CURA. Tratamento é do foro externo, CURA é do foro interno. O primeiro, no seu melhor, só pode ser um facilitador da última; no seu pior, inadvertidamente ou intencionalmente, impede-a.
Em nome de uma suposta cura e saúde, de uma suposta síntese e androginia, de uma suposta igualdade e equanimidade, e de outras supostas aspirações cuja deturpação está ao serviço da matriz de controlo, cometem-se autênticos horrores, aos quais o movimento underground, à sua maneira, não escapa, por mais que se auto-intitule de alternativa saudável de anti-isto e pró-aquilo. Cultura e contra-cultura estão ambas impregnadas de influências não procedentes da e não conducentes à matriz original que contém o Código Fonte Evolutivo. Enquanto nos focarmos externamente neste tipo de 'integração', 'transição', 'alternativas', tudo o que vamos encontrar é o outro lado da mesma 'moeda única'. Só internamente pode dar-se a autêntica INtegração do Ser Total que se reflecte de Dentro para Fora numa autêntica Transição paradigmática civilizacional, onde as Alternativas IMpossible se revelam em I.M.possible Future.
Os fenómenos que o autor fez notar nesta sua obra de 2004 estão hoje amplificados. Identifico-os na família, na nação, na humanidade como um todo, sob o mesmo nevoeiro que impede a sua abordagem. O ponto de encontro não é via discórdia vs. concórdia, é via alinhamento ao Código Fonte que habita a Consciência interna e que alinha as lentes desfazendo os filtros desalinhados que cada um adoptou e cristalizou como "evidências indiscutíveis" em vez de olhar e captar a realidade directamente.
Que humano lúcido precisa de discordar ou concordar com seja o que for? Simplesmente exprime o RYAL que emerge de Si diante da realidade externa. Quando todos o fizermos, não há o que discordar ou concordar, todos estaremos em fase na expressão singular de cada um, que não se opõe a nada nem a ninguém, mas contribui para a completude na captação da realidade autêntica e para a expansão da criação.
(11) O trauma português e o clima actual
: "Mas tratar-se-á realmente de terror, ou mesmo de microterrores, o que se passa na realidade actual da sociedade portuguesa? A situação do país leva-nos a ser mais precisos.
Consideremos as recentes ameaças à liberdade de expressão (...). Pressões políticas sobre um canal de televisão privado obrigaram um comentador - (...) - a demitir-se do seu cargo. O ministro dos Assuntos Parlamentares - (...) - nega descaradamente o facto, como o faz o presidente (e primeiro accionista) da empresa proprietária do dito canal. O primeiro-ministro afirma a sua confiança no ministro, enquanto o presidente da República, sempre preocupado com os problemas do país, não exige do primeiro-ministro que ele demita [o ministro dos Assuntos Parlamentares] (era o mínimo que devia ter feito). Entretanto o governo prepara uma central de informação para, como afirma, facilitar a comunicação entre o governo e os cidadãos, entre os diferentes órgãos governativos, etc. Trata-se de se apropriar, de domar a comunicação social e de criar, afinal, um órgão de propaganda mediática da política governamental. Por outro lado, o governo nomeia gestores-presidentes de empresas que detêm o poder sobre vários jornais de larga circulação (...). Um outro ministro (...) afirma que o governo deve controlar os programas dos canais públicos de televisão. Tudo isto, e o mais que não referi, provocou um tumulto geral nos meios da imprensa e nos partidos da oposição, o que mostra que a democracia está (ainda) viva em Portugal. Mas além da palavra <<perigoso>> que serve para caracterizar o processo em curso de <<berlusconização>> (outra palavra geralmente usada) da comuniação social, não se analisaram nem se denunciaram as ameaças reais que esta situação representa contra a liberdade de expressão.
Como foi isto possível? Como se pode chegar a um ponto, de tal modo avançado, de um processo que visa normalizar, controlar, impondo uma censura à comunicação social, desfigurando as regras da democracia, sem que avisos prévios, medidas preventivas, protestos públicos tenham surgido? Esta situação cai-nos em cima abruptamente, como se viesse do céu e não de um terreno há muito preparado para que ela acontecesse.
Mais uma vez, como foi isto possível? Consideremos dois factores decisivos: a. A ausência de espaço público, no sentido acima definido, e a importância que os média tomaram em Portugal. b. A verdadeira natureza do trauma que afectou o nosso país e os efeitos actuais.
A ausência do espaço público fez com que os média preenchessem esse espaço deixado vazio pelo salazarismo, espaço entre os indivíduos, entre os cidadãos e as instituições, entre as próprias instituições e grupos da sociedade civil e do Estado. O enorme buraco negro que os separava foi ocupado pelos média. O buraco continua a existir na realidade de todos os dias, no anonimato da vida quotidiana dos portugueses que não comunicam entre si. Mas existe agora um palco possível onde pode surgir a presença valorizada, única, do ser social e mesmo privado. Aceder à televisão é aceder à presença, ao lugar do valor social por excelência. No fundo, só existe o que se apresenta nos média e, nomeadamente, na televisão. É o espaço exclusivo, prepotente, despótico da presença pública. Quem lá não entra tende a desaparecer da vida pública (...). Mas, quem entrar tem a sua existência pública assegurada (mesmo que precária, durante <<um quarto de hora de eternidade>>).
É uma outra forma actual de exclusão. (...) Mais do que noutros países, onde existem outros meios de expressão, no nosso, sem aberturas públicas alternativas, os média fecharam o círculo do seu próprio poder de modo perfeito. (...) é impossível utilizá-los de maneira sistemática para os denunciar. Quem detém o poder mediático detém assim todo o poder mediático. Como dizia um dirigente de um canal televisivo, a televisão tanto pode fazer eleger um presidente da República como pode promover um produto comercial. (...) Hoje assiste-se a esta situação trivial mas aberrante: o exercício do poder político, nas sociedades mediocráticas, passa pelo controlo dos média. As vontades dissidentes, as linhas de fuga múltiplas que tentam escapar à rede pública mediática são esmagadas, rompidas, as vozes que fogem à norma são caladas.
Numa sociedade em que o espaço público não existe, como lugar de expressão individual e colectiva (como dimensão essencial da existência), a televisão veio compensar a ausência de presença pública do indivíduo. Por um lado, através dos seus <<representantes>>, dos políticos e das <<estrelas>> que têm a sua preferência, e em que projectam o seu desejo de aparecer. Por outro, porque aquela enorme frustração da antiga imagem de si do português, tem agora a oportunidade de se inverter, transformando a inferioridade em valor de superioridade.
O duplo-esmagamento está sempre a ocorrer na vida política portuguesa e o poder mediático a contribuir poderosamente para a sua eficácia. Com o aparecimento na televisão de alguém que por uma razão ou outra deveria ter desaparecido da vida política (por qualquer escândalo) apaga-se essa primeira razão, baralham-se as consciências dos telespectadores-cidadãos, impõe-se a aceitação do prevaricador, do indigno, do intolerável. Cria-se uma espécie de descaramento político que vem precisamente do facto de, depois de recusar dar a cara, a apresentar ao público como se nada fosse, despudoradamente.
O duplo-esmagamento, aqui, não produz terror, mas produz certamente uma não-inscrição. Ao aceitarmos o descaramento com que certas medidas são tomadas, estamos a aceitar o desaparecimento de toda a ética da vida política.
Se este tipo de duplo-esmagamento não produziu micro-terrores (que virão muito depois), ele prolifera agora através do duplo efeito do controlo da televisão pelo poder e do controlo dos territórios existenciais pela televisão. (...) a importância do capital simbólico que a imagem mediática confere. (...) A aura mediática muda o facto em direito e valor.
Com tanta magia assim ganha, o homem político mediático corre o risco de julgar que tudo pode, que as maiores asneiras, erros, desgovernações (...) - porque afinal não se inscreverão na memória popular. A isto chama-se também populismo, demagogia imanente (...).
Porque é que deixámos chegar as coisas a este ponto?
Suponhamos que as causas vêm de longe. Suponhamos que sofremos um trauma <<inaugural>> (constantemente reactivado através da história e, nomeadamente, através do salazarismo) que nos <<fez assim>>. Esse trauma <<inaugural>>, provocado e reactivado, ou que reactiva de tal maneira o medo que este se tornou um trauma, foi precisamente o trauma da não-inscrição. Já o afirmámos acima, mas convém precisar: não se trata de um trauma que não é inscrito, mas da não-inscrição que se torna trauma. Significa isto que não se trata de tal ou tal acontecimento que não se inscreve, mas a própria existência, a não-inscrição traumática impõe a não-existência real, a não-inscrição da existência como tal.
O que foi o salazarismo? Um imenso sugadouro daquilo que torna a existência um dom da vida natural (zôê) para a vida social, a maneira de viver (bios). Um buraco negro que engoliu a existência no espaço público. Por isso o mal salazarista era difuso mas essencial e <<metafísico>>, atingindo a existência do português enquanto indivíduo e enquanto povo. O mal era a impossibilidade da expressão das forças da vida, uma extraordinária chapa de chumbo que veio tapar os canais e redes de expressão da sociedade portuguesa.
Mas o trauma foi tão subtil que não foi sequer sentido como tal. De modo inédito, a chapa de silêncio não desabou bruscamente sobre a vida social, foi-se só insinuando e impregnando imperceptivelmente de tal modo que quando o povo sentiu a mudança não sabia já quando e como ela tinha começado. Assim se disseminou esse mal que acabrunhou a generalidade dos portugueses. Para estes, não vinha do regime político, vinha da <<índole>>, do <<carácter>>, da <<essência>> da portugalidade (como o fado, num certo discurso nacionalista da <<opinião>>). O mal insinuou-se subrepticiamente em nome da moral cristã e do bom senso de todos os comportamentos (codificados no lema <<Deus, Pátria e Família>>). Como, então, rebelar-se contra ele, se não se sabia de onde vinha, se ele nos pertencia enquanto essência da vida portuguesa? Virarmo-nos contra o mal era equivalente a virarmo-nos contra nós próprios (suicídios de intelectuais e artistas; expressões artísticas como o <<abjeccionismo>> em literatura; o eterno queixume da vida, do estado das coisas, dos outros) - ou entrar na clandestinidade da luta política (o que de certa maneira era uma mutilação).
Salazar conseguiu transformar a existência em trauma. Como tal a existência estava para além do limite do sofrimento tolerável - tornou-se uma não-existência, um tempo de anulação da existência individual. Existir era participar no mal, na doença metafísica que tinha invadido toda a vida portuguesa.
O efeito mais impressionante do mal segregado pela existência foi a transformação insensível do terror em medo. (...) Existia-se para ter medo de existir, o círculo fechava-se tão bem que o próprio terror que sustinha o medo foi recoberto, deixando de se ver. O salazarismo não formou um regime de terror, não era um campo de concentração, a polícia até era relativamente <<branda>>, etc. (...). A vida continuava, com a aparência de uma vida normal, aparência que foi de tal modo interiorizada que chegou a ser vivida como realidade.
Porém, a anulação total de si (do self, ou melhor, do último reduto de onde jorra a potência de vida...) que o terror provoca transformou-se, no salazarismo, em medo generalizado e sem objecto, incrustado na própria potência de existir. Medo inconsciente de existir, viver com esse medo. Preservar o tempo de existência (zôê) para manter a anulação da existência (bios). Assim, o programa político-existencial do salazarismo não levava logicamente ao holocausto (como o nazismo), mas a um círculo, em forma de impasse, na própria preservação da existência.
A consequência maior foi terem-nos cortado as nossas fontes de vida, vivermos existências separadas da nossa existência. Existência cindida, dividida em dois, uma real, infectada pelo mal essencial que nos corroía, outra, <<imaginária>>, onde se projectavam todos os fantasmas da frustração existencial.
Os duplos-esmagamentos que culminam agora na espectacularização mediática que apaga tudo reduzem a existência à pura imagem da presença, arrancam o indivíduo da vida real transportando-o para um plano virtual.
[políticas de controlo] Tão desastrosas que podem levar a formas insuspeitas de autocracia política ou de ditadura mediática no seio da democracia.
Se não afastarmos agora o nevoeiro que ameaça novamente toldar o nosso olhar, poderá ser demasiado tarde quando nos apercebermos que, sem dar por isso, nos encurralaram num beco, por um período indeterminado. Não pelo regime [x ou y], que pode ser breve, mas por outro qualquer que aproveite uma série de circunstâncias (económicas, sociais, psicológicas) para operar uma derrapagem da democracia para um sistema autocrático de tipo desconhecido.
Quis apenas mostrar quão frágil, em certos aspectos, é a nossa democracia. Duas forças nos restam, que noutros domínios e em pequenas bolsas da vida social se desenvolvem imperceptivelmente e que são próprias do melhor que possui o nosso <<génio>> (como se dizia antigamente). Uma é a nossa capacidade de fluir <<entre>> dois estratos, entre duas forças que nos prendem, outra é o nosso sentido lúcido do real, do pensamento claro (que, paradoxalmente, vem do empirismo imanente à cultura popular e da desconfiança secular que o povo sempre nutriu contra os governantes). Com essas forças, podemos fazer nascer as forças de vida que fervilham em nós e dar-lhes expressão (...).
Setembro de 2004"
:: Ao ler o início deste capítulo, em Abril como em Outubro, a sensação é de déjà-vu em relação a ocorrências políticas em 2023. Para dizer a verdade, cada vez mais tudo me parece um déjà-vu no sentido repetitivo, mesmo sem ter os mass media à minha frente. Dias, semanas, meses, anos, décadas . . . tudo soa ao mesmo, com outros nomes, outras caras, outras vestimentas, outros adornos, outros hábitos . . . mas a mesma sonolência, seja ela acabrunhada ou festiva. Torna-se cada vez mais evidente o que já não contém energia e apenas é mantido por forças retrógradas, desde o oficial ao dito alternativo.
A este respeito já me expressei no capítulo anterior. Neste último capítulo os destaques na própria transcrição são os pontos a reter. Especialmente para reforçar o facto de que não se referem e não se destinam apenas ao povo português, são antes uma chamada de atenção que deixo em eco final: nações que nunca viveram regimes totalitários explícitos exibem e regem-se por parâmetros idênticos que permitem a infiltração e implantação autocrata, primeiramente implícita e depois também explícita. Liberdade, à semelhança de outros valores vitais à existência evolutiva, vem se tornando um discurso vazio. Porque já não bastam afirmações verbais, é imperativo que se tomem posições decisivas de descontinuação do que já está desvitalizado para que a energia volte a fluir orientando toda a Humanidade para o seu próximo Destino.
(12) Notas finais (transcrição integral)
: "Tratando o pequeno escrito acima apresentado um tema difícil de classificar, impõe-se acrescentar algumas observações:
1. O objecto do texto aproxima-se mais do que os historiadores chamam <<mentalidades>> do que de qualquer outra matéria disciplinar. Mas recorre-se a apontamentos etnográficos, a factos e anedotas triviais, a conceitos psicanalíticos e filosóficos, a outros da ciência política, etc. Digamos que, epistemologicamente, o campo explorado é indefinido, com uma transversalidade no trajecto de certas noções que pode ter as suas vantagens.
2. É difícil falar de <<mentalidades>>, que são afinal forças sedimentadas no campo social e nos comportamentos (mas o que não se disse foi evidente: a que profundidade estão os diversos estratos? Qual a sua resistência à mudança? etc.). Não se procurou caracterizar o ethos português, a <<portugalidade>>, mas quando se pode descrever tal traço persistente no comportamento de um povo (falando-se então na <<hospitalidade>>, ou na <<agressividade>> de tal ou tal comunidade humana), é porque as <<mentalidades não foram ainda recobertas e substituídas por comportamentos cívicos, jurídicos, políticos interiorizados - o que tende a acontecer nas sociedades urbanas altamente desenvolvidas. Então as <<mentalidades>>, os comportamentos sedimentados, equivalem a regras sociais e institucionais e devem ser tratados como tais, e não como características da <<psicologia dos povos>>. Foi nesse sentido que se tratou cada exemplo que foi dado, cada facto-anedota descrito.
3. Porque se procurou apenas desenterrar alguns desses estratos que perduram na sociedade portuguesa contemporânea, o título engana. O tema não é <<Portugal, claro, mas um ou dois aspectos dessa entidade vasta, só possível de abordar, aliás, por um número muito limitado de perspectivas.
4. Enfim, contrariamente ao que pode parecer, nenhum pressuposto catastrofista ou optimista quando ao futuro do nosso país subjaz ao breve escrito agora publicado. Se não se falou <<no que há de bom>>, em Portugal, foi apenas porque se deu relevo ao que impede a expressão das nossas forças enquanto indivíduos e enquanto colectividade. Seria mais interessante, sem dúvida, mas também muito mais difícil, descobrir as linhas de fuga que em certas zonas da cultura e do pensamento já se desenham para que tal aconteça. Procurou-se dizer o que é, sem estados de alma, mas com a intensidade que uma relação com este país supõe."
:: Gratidão por esta obra! Que o meu investimento nela seja um factor de expansão da sua mensagem essencial, fazendo-a chegar às mãos, aos olhos, às consciências do maior número possível de portugueses multigeracionalmente.
Nas minhas transcrições procurei incluir o que reflecte Portugal enquanto nação e enquanto espelho das nações, atravessando décadas em direcção a uma actualidade normalizada por um regime de controlo globalizado, em que tecnocracia e mediacracia ditam a apreensão de uma realidade pré-fabricada e respectivos comportamentos neurolinguisticamente programados rumo a uma sociedade zombificada, que a conjuntura 2020+ evidenciou agudamente. A História repete-se num círculo vicioso, num padrão único e suas variáveis igualmente viciadas, em que só a diversidade cultural que resta às nações dá a estas uma aparência identitária, mas um olhar atento encontra esse mesmo padrão em todas as nações, porque não é um padrão nacional, é um padrão civilizacional.
Na primeira mensagem desta sequência I.M.possible exprimi uma visão da TRIAGEM CIVILIZACIONAL, cada vez mais precipitada e acelerada por eventos que não só evidenciam onde cada um e todos se situam em consciência face a tudo, como exigem um reposicionamento que necessariamente rompa com a inércia do hábito de não-Ser.
DESPERTAR não é uma palavra bonita da 'nova era' nem um código 'woke'. Chegará uma hora em que os SINOS do despertador cósmico soarão FORA e DENTRO das consciências como um IMAN INterno, impulsionando indivíduos e nações para fora do padrão, para que possam VER e reconheSER quais são as verdadeiras FORÇAS da Humanidade que a tornam coesa, unificada, renovada numa SÍNTESE CIVILIZACIONAL que produz a viragem para o novo ciclo planetário.
Portugal, como Espelho Interno para as nações por desígnio fundacional, mais do que o novo destino turístico e habitacional recém-descoberto pelo mundo, terá de levantar âncora e pôr o Veleiro-Humanidade em andamento, deixando para trás o nevoeiro que o tem prendido entre regimes esgotados do passado e do presente. Estes, ficarão disponíveis para visita na sala dos horrores do Museu civilizacional. Noutras salas menos assombrosas ficarão as designações político-territoriais e seus símbolos que não mais se sobreporão às insígnias originais, universalmente ressonantes no Código Fonte Original.
Em Outubro, no contínuo maison révision, desta vez das muitas revistas acumuladas para potenciais recortes-colagens, cruzei-me com a folha intacta de onde recortei o círculo de fundo do Postal Circular de 2014 que é a imagem desta mensagem. Deu-se ali o insight de ligação. Pouco depois, um artigo noutra revista salientou-se em conteúdo e forma. Recortei de imediato já no detalhado contorno final, antecipando a sua convergência com o círculo vazado do recorte antigo. Sim. Fiz a montagem sem colar e fotografei. Soube que o seu lugar seria no final deste longo impacto 2, aprofundado na re-leitura, transcrição, comentário desta obra que a Lei da Sincronia pôs na minha mão em finais de Abril deste ano. Chegada ao final, do último parágrafo do último capítulo antes das Notas salientou-se a frase que veio ao encontro desta composição visual, confirmando o sentido e a direcção que o Postal Circular anterior assume aqui e agora. Evocou-se ainda uma peça mais antiga que adicionei hoje à categoria Rewind to Forward do Blog e hiperliguei na imagem.
"Duas forças nos restam, . . .
que são próprias do melhor que possui o nosso <<génio>> . . .
Uma é a nossa capacidade de fluir <<entre>> dois estratos,
entre duas forças que nos prendem,
outra é o nosso sentido lúcido do real . . ."
Legenda da imagem central e seu título original abaixo dela:
"Relógio despertador com escudo da República,
à venda no Museu da República por Є 16,85"
I.M.possible Future is the very Living Matrix,
not another closed and deadening system.
I.M.
m.





